quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Madredeus, W. Szymborska e Raul Macedo


Coisa linda para se ver, ouvir e ler a toda hora e não só em vésperas de datas especiais!
Carícias.

Delicio-me sempre com Madredeus.
Vale a pena curtir o link:
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hCUOQYruotI





A mulher de Lot            (Wislawa Szymborska)

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.





In Memoriam       (Raul Macedo)


Sugiro que Wislawa

tenha fumado no hospital

e dito – daria tudo

por um  café, e alguém

com uma almofada apoiaria

sua cabeça,  e ela

 pensaria  em dizer

que não perdeu ainda a cabeça,

mas não  diria, não era

preciso, e ela ,sorrindo,

 sabia  desde  o começo,

o algodão do estofo da cama

o soro, os aparelhos,

 ao rés da música abrindo

lá fora alguns pássaros

na alva da janela,

olharia a relva sem olhar

para trás, para os civis

(apenas pra moça de xale

que alimentava as pombas)

sentava num banco, elegante,

esperava, esperava

e tomava seu café

como quem abraça um amigo.




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3 comentários:

  1. Nossa... essa música é linda...

    Obrigado.

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  2. Raul é um desgramado! Madredeus é uma desgrama!
    Wislawa é desgramada também! Tudo uma desgrama de bão, Vera!!!

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    1. Desgrama de bāo é seu comentário. Valeu, Carla!

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