quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Flashes de Fundo de Tacho

Das Olimpíadas de 2012 ficaram bem fortes em minha memória: a hilariante apresentação de Mr. Bean com a orquestra sinfônica inglesa em Carruagem de Fogo; a pobre rainha saltando de paraquedas com o novo James Bond, deplorável; e a linda imagem da Inglaterra rural sobre o estádio modernoso.

Mas o que me marcou realmente durante aquele período estava bem longe do afluxo de turistas ao frio solo britânico: o pouso perfeito do robô Curiosity em Marte, monitorado pelos cientistas da Nasa!!

Impressionei-me tanto que intitulei "Curiosity" a minha obra no Farofarra 2012. Não fui premiada, mas, em compensação, o assunto me rendeu uma conversa agradabilíssima sobre... o amor e outras abobrinhas.

Moral da história: alhos e bugalhos podem se corresponder plenamente.

E, antes que se decidam pela minha imediata internação, meus queridos dois leitores, despejo aqui o saldo bem espremido do degustado e deglutido: flashes de fundo de tacho.



Não há nada tão enganador, e por isso mesmo tão atraente, quanto uma superfície calma.
(James Joyce)



Matéria Humana  

O homem caminha como uma forma de exorcismo,
exigência demoníaca,
contra a massa de obstáculos.
Energia meditativa
impressa no seu traçado,
ímã dos acontecimentos.
O homem caminha recusando
ser a sua própria paisagem,
oferecendo resistência,
pastoreando o precário.
O homem que caminha 
é um esboço de figura,
crispação do espírito,
prolongamento
da presença.
O homem que caminha 
finca os pés no mundo,
funda uma perspectiva,
cultiva um campo de forças.
Meridiano e mercúrio,
secretamente
inacabado.

(Augusto Massi)




O cantor e o poeta podem ser perigosos.
Eles fazem falar o silêncio, o que foi calado,
reprimido.

(Affonso Romano de Sant'Anna)




Amo. Desordenadamente; amo sem horizonte, amo delírio.
Delinquente.

A mente tamborila vaga.
Vaga enquanto sente.

Emaranhada,
em um nó solto,
fluente.

Mas só
em um mundo
de anseio,
sem rumo,
cheio de nada,
cheio,
é que eu sei
onde é meu sul, onde é o poente.

(Ana Kehl de Moraes)




Papai canta, o rosto de papai cai para debaixo da mesa 
enquanto canta, cai sobre o cavalete, mas, que droga,
nós somos uma família feliz, droga,
a felicidade evapora na panela de nabos, droga,
o vapor nos arranca a cabeça de tempos em tempos,
a felicidade nos arranca a cabeça de tempos em tempos,
mas, que droga, a felicidade devora nossa vida.

(Herta Müller, em "Depressões")




Poesia exige um silêncio abismal.
Ler, escrever ou ouvir poesia é abismar-se.

(Affonso Romano de Sant'Anna)




Da arte fotográfica:
há belezas que só se manifestam quando isoladas;
há certezas que só dignificam quando esquecidas.

(Vera Versiani)














sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Aforismos

Algumas frases recolhidas do site "Escuela de Taichi Joan Yin Yang": 



"Si piensas que puedes, tu puedes; y si piensas que no puedes, tienes razón".



"Si te sientes solo cuando estás solo es que estas mal acompañado".



"Nadie es tu amigo, nadie es tu enemigo, todos son tus maestros".



"Si no levantas los ojos creeras que eres el mas alto".






Nietzsche:


"Tome cuidado para que, ao se desfazer dos demônios, você não se desfaça do que há de melhor em você".


"O homem parece ter mais caráter quando segue seu temperamento que quando segue seus princípios".




Clarice Lispector:


"Existir não é lógico".


"Só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu faço para conseguir ser possível?"




Graciliano Ramos:


"Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba".




Aristóteles:


"O homem não é o que há de melhor no mundo".


"A felicidade perfeita é uma atividade contemplativa".




Jô Soares:


"O material escolar mais barato que existe é o professor".




Vera Versiani:


Receber um prêmio é muito bom.
O problema é se julgar merecedor".




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Dois poemas e uma historieta


CONTINUUM

por um breve
instante
estive em
tempo de
enlouquecer

mas durou
o pouco
que duram
certos detalhes
farpas
névoas
notas de cantigas
que flutuam
solitárias
e que 
constituem
o pó
de secas
desmemórias

no instante 
seguinte
sinto-me 
íntima
de mais
mais uma 
loucura
outro ermo
outra roda
outro rumo
outra roça...



BIROSCA

não apenas a balança Filizola
nem o rádio de pilha prateado
no balcão de cimento cor-de-rosa
recendendo a álcool e vozes de outros pátios

nem tampouco o mostruário vário
no varejo volúvel e indeciso
de fumo, brincos, drágeas, calendários
entre garrafas e caixotes reunidos

junto a vassouras piaçava
e dorsos de franguinho a quilo
certo olhar também exala
e reclama
um quê de esperança
um sorriso




HISTORIETA 10

 – Chapéu, a rapaziada tá falando que a vovó é a bola da vez. Ela tá entocada.
Apanha uma saca e bota esse rango aí pra reforçá o almoço da coroa; e rapa fora sem arengação senão o bicho vai pegá.

– Calma, mano! Sou puro love, puro love! Ponta firme! Dá cá esse farnel que eu vou
tirar a maior chinfra, na maior responsa!

– Acho bom fazê o levante da pista, que os lobo tão de ratoeira.

– Qualé, mermão, tu tá na noia, é? Tá duvidando da juventude? Tenho cara de mané?

– Que parada é essa? Se intera, cumpade. Não duvido que tu é o cara, mas pra saí da toca tu tem de ir na manha, na maior limpeza, num dá pra encará os hômi como
quem brinca de bandido e mocinho não.

– Tá bom, na boa, quer me ensinar o desenrole? A parada num tá sinistra não. Em todo caso, mete um ferro na saca. Se for preciso, eu sento o dedo neles. Tu fica aqui na contenção. Qualquer música desafinada tu chama os frentes pra reforçá.
Ninguém senta o prego nimim assim fácil não. Antes disso a rapêizi passa o rodo neles.
Ah, meu Pai, obrigado por mais um dia nesta Tua terra maravilhosa!
















domingo, 12 de agosto de 2012

Deu-me livros!


Tem lido muito, a ponto de esquecer ou deixar de lado prioridades
que se acumulam em sua lista de compromissos pessoais?

Tem andado no mundo das nuvens, perdido o ponto de descida no
metrô, dormido pouco, chegado atrasado nos encontros, reuniões e
consultórios?

Tem relegado a segundo plano o convívio familiar corriqueiro e
emocionalmente necessário?

Tem adiado projetos, criações, realizações, em prol de um maior e
fundamentado conteúdo?

Atenção para a dose quiçá excessiva em sua dieta literária!

Acontece, com bastante frequência, de despendermos horas, dias,
meses, em leituras infindáveis, quando há tarefas talvez mais
urgentes e necessárias proliferando como é de praxe à nossa volta.
Perfeitamente compreensível, não?

Leitura é medicamento imprescindível em nossas prateleiras, isso
é fato.

Leitura é atenuante e neutralizador dos efeitos desastrosos das
exigências e ilusões mundanas contemporâneas que nos são
ofertadas por via de regra.

Faz florescer o eu em mim autêntico e delicado, alijado das
tribunas do cotidiano competitivo e desvairado.

Diz José Castello em uma de suas crônicas: “o sujeito que lê deseja
livrar-se de si. É um estranho suicida”.

Há que se morrer mil vezes a cada dia, para se dar conta de que
existe um eu a salvaguardar ou fazer renascer.

É o livro que mata o eu em mim supérfluo e frio, de valores
construídos sobre consensos de conteúdos frágeis que não me
dignificam nem realizam.

Viva o livro, este assassino!!






































quarta-feira, 25 de julho de 2012

Patativa do Assaré


Recorte de “O Padre Henrique e o Dragão

da Maldade” , de Antônio Gonçalves da Silva, o

Patativa do Assaré:



Sou um poeta do mato
vivo afastado dos meios
minha rude lira canta
casos bonitos e feios
eu canto meus sentimentos
e os sentimentos alheios

Sou caboclo nordestino
tenho mão calosa e grossa,
a minha vida tem sido
da choupana para roça,
sou amigo da família
da mais humilde palhoça
Canto da mata frondosa
a sua imensa beleza,
onde vemos os sinais
do pincel da Natureza,
e quando é preciso eu canto
a mágoa, a dor e a tristeza

Canto a noite de São João
com toda sua alegria,
sua latada de folha
repleta de fantasia
e canto o pobre que chora
pelo pão de cada dia


Canto o crepúsculo da tarde
e o clarão da linda aurora,
canto aquilo que me alegra
e aquilo que me apavora
e canto os injustiçados
que vagam no mundo afora

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E de “O Meu Livro”, do mesmo Patativa:



Meu nome é Chico Braúna
Eu sou pobre de nascença
Deserdado de fortuna
Mas rico de consciença
Nas letras num tive estudo
Sou mafabeto de tudo
De pai, de mãe, de parente
Mas tenho grande prazê
Pruquê aprendi a lê
Duma forma deferente

ABC nem beabá
No meu livro não se encerra
O meu livro é naturá
É o má, o céu e a terra
Com a sua imensidade
Livro cheio de verdade
Da beleza e de primô
Tudo incadernado, iscrito
Pelo pudê infinito
Do nosso Pai Criadô

O meu livro é todo cheio
De muita coisa incelente
Em suas foia é que leio
O pudê do Onipotente
Nesta leitura suave
Eu vejo coisa agradave
Que muita gente não vê
Por isso sou conformado
Sem eu nunca tê pegado
Numa carta de ABC

Num é preciso a pessoa
Cunhecê o beabá
Pra sê honesta e sê boa
E em Jesus acreditá
Deus e seu milagre exato
Eu vejo mesmo nos mato
Justiça, verdade e amô
De minha mente não sai
Deste jeito era meu pai
E o finado meu avô

De que adianta a ciença
Do professô estudioso
Se ele não crê na existença
De um grande Deus Poderoso?
Eu sem tê letra nem arte
Vejo deus em toda parte
O seu pudê radiante
Tá bem visive e presente
Na mais pequena semente
E no maió elefante

Deus é força infinita
É o esprito sagrado
Que tá vivendo e parpita
Em tudo que foi criado
Não há quem possa contá
É assunto que não dá
Pra se dizê no papé
Não inziste professô
Nem sábio, nem iscritô
Pra sabê Deus cuma é

Apenas se tem certeza
Que ele é a santa verdade
E é a subrime grandeza
Em bondade e divindade
Porém se ele é infinito
E soberano e bendito
De tudo superiô
Que até os bicho lhe adora
Proquê muitos tão pro fora
Das orde do Criadô?

Deus quando o mundo criou
Ordenou a paz comum
E com amô insinou
O devê de cada um
Os home pra trabaiá
Um ao outro respeitá
E a boa istrada segui
E os bicho irracioná
Promode se alimentá
Produzi e reproduzi

Ainda hoje os animá
As orde santa obedece
Sem uma virga faltá
Se alimenta, omenta e cresce
Eles que nada magina
Que nada raciocina
Não pensa nem tem razão
Continua sem disorde
Sempre obedecendo as orde
Do Sinhô da criação

Segue o seu caminho exato
Até a própria formiga
Trazendo foia dos mato
Dentro da terra se abriga
Sem nada contrariá
Cumprindo as lei naturá
Ao divino mestre atende
Sabe até fazê iscoia
Pois ela só corta as foia
Das foia que não lhe ofende

Se o João de Barro, o Pedreiro
Sabendo que não se atrasa
Faz de dezembro a janêro
A sua bunita casa
Com as porta pro poente
Pois nunca faz pro nascente
É orde do Sumo bem
Nunca aquele passarinho
Faz a porta do seu ninho
Do lado que a chuva vem

Tudo segue as orde santa
Sem havê ninhuma fáia
Enquanto a cigarra canta
A furmiguinha trabáia
Bria o lindo vaga-lume
Faz a aranha o seu tissume
E o passo beija-fulô
Voa pra frente e pra trás
E o certo é que todos faz
Aquilo que Deus mandô

Será que o home, esse ingrato
Dotado de intiligença
Vendo os bichinho do mato
Com tamanha obediença
Não se sente incabulado
Acanhado, invergonhado
Por não sigui as lição
Da istrada da sua vida
Esta graça concedida
Pelo autô da criação?

A Divina Providença
Com o seu imenso pudê
Deu ao home intiligença
Foi pra ele se regê
Não precisa o Soberano
Chegá a dizê: Fulano
Seu caminho é por ali
Deus lhe deu o dom divino
O dom do raciocínio
Pra ele se conduzi

Ninguém vem contrariá
A mim, o Chico Braúna
Não precisa Deus mandá
Que a humanidade se una
Pois todos tem cunciença
Tem o dom da intiligença
Por defeito e gratidão
Todos tem de obedecê
Cada um tem o devê
De defendê seu irmão

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sábado, 30 de junho de 2012

A Ilusão da Alma


1º)
A propósito do livro A Ilusão da Alma, de Eduardo Giannetti, não vou dizer nada.
Sugiro leitura dos artigos que o Wisnik vem publicando no jornal O Globo.
O terceiro texto sobre o assunto está prometido para o próximo domingo.




Se sou

o que almejo ser

o que adoraria ser

o que penso que sou

o que me surpreendo por ter me transformado em

o que me apraz ser vista como

o que sou forçada a

um desdobrar

sem fim

Se sou

o que pensam

o que traduzem

o que interpretam

o que nem imaginam

o que revelam

o que esperam

o que deduzem

de mim

A resultante

sendo

em si

uma variedade

surpreendente e impalpável

que diz mais do que qualquer ilusão da alma pode sugerir

muito mais do que qualquer eu fajuto pode inferir

mas muito menos do que o deus dos tempos pode me pedir



Sou tudo e nada

joia e trapo

lucro e lixo

joio e trigo.





2º)
Minha memória associativa me sopra aos ouvidos alguns trechos de Knots, livro de R.D.Laing, psiquiatra inglês que muito impressionou minha geração lá pelos idos de 1973 e que foi uma referência importante tanto para profissionais quanto para leigos interessados nos nós, impasses, pontos cegos, interseções, tensões, disjunções, entre nossos padrões de relacionamento (com o outro e com nós mesmos) – a palavra sendo, no enfrentamento, o instrumento de revelação ou desordem:



They are playing a game. They are playing at not

playing a game. If I show them I see they are, I

shall break the rules and they will punish me.

I must play their game, of not seeing I see the game.





How clever has one to be to be stupid?

The others told her she was stupid. So she made

herself stupid in order not to see how stupid

they were to think she was stupid,

because it was bad to think they were stupid.

She preferred to be stupid and good,

rather than bad and clever.



It is bad to be stupid: she needs to be clever

to be so good and stupid.

It is bad to be clever, because this shows

how stupid they were

to tell her how stupid she was.





Narcissus fell in love with his image, taking it to

be another.



Jack falls in love with Jill’s image of Jack, taking

it to be himself.

She must not die, because then he would lose himself.

He is jealous in case anyone else’s image is reflected

in her mirror.



Jill is a distorting mirror to herself.

Jill has to distort herself to appear undistorted

to herself.



To undistort herself, she finds Jack to distort her

distorted image in his distorting mirror.

She hopes that his distortion of her distortion may

undistort her image without her having to distort herself.





If I don’t know I don’t know

                                              I think I know

If I don’t know I know

                                       I think I don’t know












terça-feira, 26 de junho de 2012

A Árvore da Vida



Revi A Árvore da Vida, de Terrence Malick.

Renovo o encantamento.

Fotografia artística de primeira grandeza, bem cuidada, um show à parte, com o diretor de fotografia, Emmanuel Lubezki.  Cada centímetro de cena trabalhado em prol de um resultado fotográfico que não é a criação de imagens inusitadas de lugares inexistentes ou dificilmente visitados, mas lugares comuns onde meus pés tropeçam a cada instante, onde o homem transita em seu dia a dia desde sempre.

A cena das aves, incontáveis pontos negros em movimento num urbano entardecer, é de uma beleza abençoada e penetrante. E trivial. Como tantas outras referências do belo a que somos submetidos do início ao fim do filme. Tudo de um apuro magistral, poético , perfeito.                  Lindo. Lindo.

O filme pode parecer triste a quem é pego de surpresa pela densidade emocional e reflexiva, mas encanta com a enormidade de sua beleza. Aquece e engrandece nosso íntimo com nutrientes espirituais. A música “silenciosa”, calma e sutil é perfeita na composição de todo o quadro.

Há um incômodo, um desassossego familiar. Somos levados a um passeio dentro de nossa própria alma.

O filme conta minha história. Sou eu o testemunho da dor e do mistério do enfrentamento que é o viver. O roteiro é arrancado a fórceps do meu peito. Não há a maciez ou o alívio de uma distância.

Os menores de cinquenta anos, os de cueiros, terão certamente mais dificuldade em entender ou alcançar a profundidade dessa obra.

O mundo tratado é o de hoje, o de ontem ou o de amanhã. Palpável, acessível, corriqueiro.  E o som, tão familiar quanto o que possivelmente ecoa nos canais de ressonância de nossas artérias e conexões sinápticas.

As imagens são tocantes e arrebatadoras: pulsão de vida e morte num contínuo de luzes, sombras e reflexos, que são fotografias de buscas, medos e esperanças esculpidos em nossas desnorteadas lembranças.

O filme levanta questões profundas sobre a possibilidade de coexistência de conceitos como Deus, bondade e justiça num mundo povoado de tragédias, equívocos e maldades.

É um tratado magnífico sobre tudo o que nos concerne. Fala sobre amor, sexualidade, infância, amadurecimento, violência, inexorabilidades, segredos que nunca serão segredos, revelações, impotência e medo, reconhecimento e humildade.

É um filme grandioso.