Como é bom abrir jornais, livros, publicações diversas que me passam pelas mãos e ser brindada com surpresas, poemas de nomes desconhecidos para mim, mas que me trazem o mesmo arrebatamento, a mesma alegria, a mesma sensação de universo expandido que autores de referência me provocam.
Ana Martins Marques, poeta mineira, foi um desses nomes que me atiçaram e confortaram o espírito neste primeiro semestre.
Aí vão dois de seus poemas:
O Relógio
De que nos serviria
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com o dedo um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febres, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se te cortas com papel
ou feres o pé com vidro:
dia
se ao comer com pressa queimas
o céu da boca:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
Ícaro
Somos os dois
incompatíveis
como a cera
e o sol
e no entanto
parecemo-nos
como se parecem
o açúcar e o sal
devemos
porém
deixar
de insistir
pois se até
Ícaro
caiu
em si.
Arte, poesia, cinema, literatura, música, cultura popular: reflexões, considerações, aforismos, poemas...
segunda-feira, 25 de julho de 2011
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Tempos de Paz
Gente, acabo de ver um filme que é uma obra-prima! (embora os cri-críticos possam insistir na falta de tecnoesfuziantes efeitos especiais, planos ou tomadas de cena que façam ressuscitar Cidadão Kane).
Tempos de Paz (2009), de Daniel Filho, é indescritível em sua delicadeza no trato de questões humanas, das mais incontroversamente violentas às mais metafísicas.
Uma homenagem ao teatro, com grande reverência e respeito ao ser artista!
Um convite à reflexão profunda sobre a linguagem e suas variantes de sutilezas múltiplas.
Um belo tratado filosófico, dentro de um contexto histórico traumático, sobre a violência, a culpa, a submissão, o medo, a verdade...
Tony Ramos e Dan Stulbach dão um banho de atuação.
São impressionantes o alto nível, o domínio técnico e a sensibilidade desses atores!
A maravilhosa trilha sonora é de Egberto Gismonti.
José Eduardo Agualusa, em Estação das Chuvas, ed. Língua Geral, 2010:
... encontraram um bosque feito inteiramente de uma mesma cinza e dentro dele algumas cubatas também de cinza, e dentro das cubatas, esteiras e moringues e utensílios diversos, tudo de cinza. Presos aos raminhos das árvores havia centena de pequenos pássaros, igualmente de cinza morta, com as suas alegres canções de chuva cristalizadas na ponta dos bicos. As bombas dos portugueses tinham travado o curso do tempo sobre o bosque, fechando aquele instante aflito numa redoma de cinzas. Passado um instante que a todos pareceu interminável, alguém levantou o braço e tocou com a ponta dos dedos a frágil estrutura de cinzas. Então todo o bosque se começou a desmoronar, com um demorado rumor de chuva mansa, e, com ele, os pássaros e as cubatas e a utensilagem doméstica, e em breve nada havia em redor a não ser uma larga planície de cinza idêntica.
Tempos de Paz (2009), de Daniel Filho, é indescritível em sua delicadeza no trato de questões humanas, das mais incontroversamente violentas às mais metafísicas.
Uma homenagem ao teatro, com grande reverência e respeito ao ser artista!
Um convite à reflexão profunda sobre a linguagem e suas variantes de sutilezas múltiplas.
Um belo tratado filosófico, dentro de um contexto histórico traumático, sobre a violência, a culpa, a submissão, o medo, a verdade...
Tony Ramos e Dan Stulbach dão um banho de atuação.
São impressionantes o alto nível, o domínio técnico e a sensibilidade desses atores!
A maravilhosa trilha sonora é de Egberto Gismonti.
José Eduardo Agualusa, em Estação das Chuvas, ed. Língua Geral, 2010:
... encontraram um bosque feito inteiramente de uma mesma cinza e dentro dele algumas cubatas também de cinza, e dentro das cubatas, esteiras e moringues e utensílios diversos, tudo de cinza. Presos aos raminhos das árvores havia centena de pequenos pássaros, igualmente de cinza morta, com as suas alegres canções de chuva cristalizadas na ponta dos bicos. As bombas dos portugueses tinham travado o curso do tempo sobre o bosque, fechando aquele instante aflito numa redoma de cinzas. Passado um instante que a todos pareceu interminável, alguém levantou o braço e tocou com a ponta dos dedos a frágil estrutura de cinzas. Então todo o bosque se começou a desmoronar, com um demorado rumor de chuva mansa, e, com ele, os pássaros e as cubatas e a utensilagem doméstica, e em breve nada havia em redor a não ser uma larga planície de cinza idêntica.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Um lindo poema de Tanussi Cardoso
sobre o nome das coisas (para Luiz Ruffato)
I
porque todos os mistérios são santos,
não nomearemos o nome das
coisas.
ainda que os desertos floresçam
e o caos das chuvas transborde,
deles, o sangue não diremos.
II
no início era a Vida.
depois aprenderam os cães a ladrar
e o homem a chamar o nome das coisas
e os dedos a cruzar em nome de Deus.
III
ainda que encruado o Filho
ou mesmo que a serpente
renegue por 3 vezes
a árvore do desejo,
o nome não será.
ainda que lambam as chagas.
ainda que as lágrimas escorram,
toda a dor será cuspida
e o sol cumprido.
IV
quando caminhávamos na areia,
os nomes não havia.
havia o mar sem nome.
o céu, as frutas,
as pegadas dos pássaros
e o sonho havia sem nome.
tudo era simples.
simples os homens
sem nomes.
V
eram noites
e dias indefiníveis,
as coisas.
os olhos aprendiam o verde
e pescavam sem nomear.
os olhos ouviam tudo.
maravilhavam-se de
maravilhas!
VI
quem nos carrega nos ombros?
quem nossa língua nos bebe?
a quem dizer, quero?
a quem dizer, preciso?
a quem dizer, inocentes?
VII
as coisas que não diremos
habitam as cidades
e as sombras iluminam
escuras cavernas.
os dentes, os cabelos
arranca-nos, o tigre.
VIII
vivemos dentro de nós.
estrangeiros.
percorremos estradas,
ruas, cidades. nus e
estrangeiros.
cada sorriso, cada
abraço, estrangeiros.
nossos mares e navios,
estrangeiros.
IX
o Tempo se cola ao corpo.
o rosto envelhece.
unhas expurgam.
enruga a pele.
resta esperar.
X
quantas faces temos?
qual delas se chama
amor?
quem em nós se diz a
morte?
qual acende a vela do
templo?
XI
eis que
os nomes não ditos se esquivam
e o Verbo
que era barro
se faz
vento.
(Tanussi Cardoso)
I
porque todos os mistérios são santos,
não nomearemos o nome das
coisas.
ainda que os desertos floresçam
e o caos das chuvas transborde,
deles, o sangue não diremos.
II
no início era a Vida.
depois aprenderam os cães a ladrar
e o homem a chamar o nome das coisas
e os dedos a cruzar em nome de Deus.
III
ainda que encruado o Filho
ou mesmo que a serpente
renegue por 3 vezes
a árvore do desejo,
o nome não será.
ainda que lambam as chagas.
ainda que as lágrimas escorram,
toda a dor será cuspida
e o sol cumprido.
IV
quando caminhávamos na areia,
os nomes não havia.
havia o mar sem nome.
o céu, as frutas,
as pegadas dos pássaros
e o sonho havia sem nome.
tudo era simples.
simples os homens
sem nomes.
V
eram noites
e dias indefiníveis,
as coisas.
os olhos aprendiam o verde
e pescavam sem nomear.
os olhos ouviam tudo.
maravilhavam-se de
maravilhas!
VI
quem nos carrega nos ombros?
quem nossa língua nos bebe?
a quem dizer, quero?
a quem dizer, preciso?
a quem dizer, inocentes?
VII
as coisas que não diremos
habitam as cidades
e as sombras iluminam
escuras cavernas.
os dentes, os cabelos
arranca-nos, o tigre.
VIII
vivemos dentro de nós.
estrangeiros.
percorremos estradas,
ruas, cidades. nus e
estrangeiros.
cada sorriso, cada
abraço, estrangeiros.
nossos mares e navios,
estrangeiros.
IX
o Tempo se cola ao corpo.
o rosto envelhece.
unhas expurgam.
enruga a pele.
resta esperar.
X
quantas faces temos?
qual delas se chama
amor?
quem em nós se diz a
morte?
qual acende a vela do
templo?
XI
eis que
os nomes não ditos se esquivam
e o Verbo
que era barro
se faz
vento.
(Tanussi Cardoso)
terça-feira, 28 de junho de 2011
Gonçalo M. Tavares II
Contra as precipitações
Estás vivo e, no essencial, há uma falha – não se ter ainda morrido não pode ser, afinal, nunca, a última das satisfações.
Diferenças
Se enquanto te deixas acariciar pela ociosidade podes, de longe, ser confundido com um cão, quando te levantares para agir, aí as diferenças terão de ser evidentes, sob o perigo de deixares de ser considerado humano.
A ameaça
O projeto de enterrar, como um corpo, até ao topo, uma casa é mais violento do que a mera destruição levada a cabo por uma engenharia de explosivos. (Sob um pano ou sob a terra), bem mais ameaçador do que as ruínas fica aquilo que, mantendo a sua energia intacta, se tenta ocultar. (Quando destróis, diminuis a força do que antes era uma unidade, quando tapas, aumentas.)
Como viver?
Guiada, em simultâneo, por um animal lento e um rápido, a carroça, desequilibrada, acabará por cair afinal para um dos lados – e o criado, que agarrava o chicote, culpará do acidente o animal mais lento, enquanto a nobre dama, lá atrás, na carruagem, não hesitará em culpar o mais rápido.
Debaixo da terra
Estamos no âmbito do pormenor e é nele que o verme distribui o seu apetite. Pelo tempo: com a paciência ou, se quiserem, com a lentidão. E pelo espaço: com o rigor minucioso de nenhuma parte deixar por explorar.
Como os deuses, em certos mitos de origem, os vermes conhecem comendo; devoram como aprendizagem.
O perigo
Nada é tão perigoso como teres cumprido todos os teus deveres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto.
Uma razão para o fazeres
Se não acorreres ao local, nunca poderás saber se quem grita por socorro o quer receber ou dar.
Viver
Atacado ao longo do caminho por salteadores que o roubam e maltratam, o homem, sobrevivendo, regressa por fim a casa para preparar a próxima viagem.
Estar vivo
Como os dois pés não apenas pousados no Mistério, mas nele como que afundados – de tal forma que já duvidas se sob uma película opaca e incompreensível eles ainda existem e te pertencem –, eis que avanças o tronco tentando que pelo menos as mãos estejam fora do alcance dessa força de que não conheces origem nem limites.
Como aquele que diz adeus quando se despede de alguém que ama e não sabe se voltará a ver, moves então a tua mão direita, que aparece, como da manga de uma camisa comum, no lado de fora do Mistério onde caíste sem seres convidado e sem desejares. Mas de fato a tua mão não se despede de ninguém – talvez peça ajuda.
Estás vivo e, no essencial, há uma falha – não se ter ainda morrido não pode ser, afinal, nunca, a última das satisfações.
Diferenças
Se enquanto te deixas acariciar pela ociosidade podes, de longe, ser confundido com um cão, quando te levantares para agir, aí as diferenças terão de ser evidentes, sob o perigo de deixares de ser considerado humano.
A ameaça
O projeto de enterrar, como um corpo, até ao topo, uma casa é mais violento do que a mera destruição levada a cabo por uma engenharia de explosivos. (Sob um pano ou sob a terra), bem mais ameaçador do que as ruínas fica aquilo que, mantendo a sua energia intacta, se tenta ocultar. (Quando destróis, diminuis a força do que antes era uma unidade, quando tapas, aumentas.)
Como viver?
Guiada, em simultâneo, por um animal lento e um rápido, a carroça, desequilibrada, acabará por cair afinal para um dos lados – e o criado, que agarrava o chicote, culpará do acidente o animal mais lento, enquanto a nobre dama, lá atrás, na carruagem, não hesitará em culpar o mais rápido.
Debaixo da terra
Estamos no âmbito do pormenor e é nele que o verme distribui o seu apetite. Pelo tempo: com a paciência ou, se quiserem, com a lentidão. E pelo espaço: com o rigor minucioso de nenhuma parte deixar por explorar.
Como os deuses, em certos mitos de origem, os vermes conhecem comendo; devoram como aprendizagem.
O perigo
Nada é tão perigoso como teres cumprido todos os teus deveres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto.
Uma razão para o fazeres
Se não acorreres ao local, nunca poderás saber se quem grita por socorro o quer receber ou dar.
Viver
Atacado ao longo do caminho por salteadores que o roubam e maltratam, o homem, sobrevivendo, regressa por fim a casa para preparar a próxima viagem.
Estar vivo
Como os dois pés não apenas pousados no Mistério, mas nele como que afundados – de tal forma que já duvidas se sob uma película opaca e incompreensível eles ainda existem e te pertencem –, eis que avanças o tronco tentando que pelo menos as mãos estejam fora do alcance dessa força de que não conheces origem nem limites.
Como aquele que diz adeus quando se despede de alguém que ama e não sabe se voltará a ver, moves então a tua mão direita, que aparece, como da manga de uma camisa comum, no lado de fora do Mistério onde caíste sem seres convidado e sem desejares. Mas de fato a tua mão não se despede de ninguém – talvez peça ajuda.
domingo, 26 de junho de 2011
Coisas boas demais de se ouvir!
Três maravilhas, bem distintas, para serem escutadas, curtidas, apreciadas, degustadas. Delícias de CDs:
1) Thaís Gulin (ôÔÔôôÔôÔ) – praticamente, só inéditos.
2) Áurea Martins (depontacabeça) – neste disco Áurea canta nosso genial autor Hermínio Bello de Carvalho.
3) Eladio Pérez-González (canciones populares españolas, de Manuel de Falla; Nicolas Pérez-González; H. Villa-Lobos; Joaquin Rodrigo) – infelizmente, este CD não está sendo comercializado. Com muita sorte e paciência, poderão ouvi-lo através das benesses da internet. Pretendo colocá-lo aqui em breve.
PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA (Affonso Romano de Sant'Anna)
Parem de jogar cadáveres na minha porta.
Tenho que sair
– respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra
a ouvir o que diz a água daquelas fontes
e acompanhar o desenho imperturbável dos zeligs.
Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto
e de semear pregos por onde passo.
Estou em Essauíra, na costa do Marrocos
olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas ao redor de Diamantina.
Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombra
e abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos
naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.
Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi
frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas
e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.
Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos campos da Toscana
onde a gigante mão de Deus penteia os montes
e minha alma se sente pequenina.
Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
– na Cidade Proibida na China.
Não adianta o clamor de burocráticos compromissos
nem vossa ira. Tenho oito anos
saí para nadar naquele açude atrás dos morros
e vou pescar a minha única e inesquecível traíra.
Parem de jogar cadáveres na minha porta
na minha mesa
na minha cama
dificultando
que alcance o corpo da mulher que amo.
Afastem de mim
o meu
o vosso cálice.
Impossível ficar no tempo que me coube
o tempo todo
preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
como um Sísifo moderno
desesperado
julgar
– que o tinha que carregar.
3 X NIETZSCHE (Affonso Romano de Sant'Anna)
Deus
não precisa da autorização de Nietzsche
para existir
nem de fanáticos que declaram guerra
aos infiéis.
Deus
– ou que nome se lhe dê –
não necessita de preces, lágrimas, promessas.
Deus sequer lê poemas.
Na melhor das hipóteses
– os escreve
mas não assina
nem os divulga.
Na verdade, não necessita sequer
de nossa leitura.
Ele está em todas as partes
e acha vã nossa procura.
E quando lê livros de filosofia, ri,
soberano
– de nossa loucura.
Quando Deus tomou conhecimento
das teorias de Nietzsche sobre a "morte de Deus"
estava, como sempre, ocupado
em fazer e refazer galáxias
pelo elementar prazer divino
de recriar-se eternamente.
Desconsolado, então,
Nietzsche se matou.
Pesaroso, Deusfoi ao seu enterro
como não podia deixar de ser.
Ele vai ao Grande Mercado Nietzsche
adquirir artefatos para seu discurso.
Há ferramentas para multiuso
abrem e fecham qualquer porta
e conceito.
Na entrada
deve-se pegar um cestinho
para colher o que se pode das prateleiras.
Se não se acha o que se procura
basta ir um quarteirão mais adiante
em duas lojas tudo se encontrará
– uma se chama Foucault
– a outra Derrida.
1) Thaís Gulin (ôÔÔôôÔôÔ) – praticamente, só inéditos.
2) Áurea Martins (depontacabeça) – neste disco Áurea canta nosso genial autor Hermínio Bello de Carvalho.
3) Eladio Pérez-González (canciones populares españolas, de Manuel de Falla; Nicolas Pérez-González; H. Villa-Lobos; Joaquin Rodrigo) – infelizmente, este CD não está sendo comercializado. Com muita sorte e paciência, poderão ouvi-lo através das benesses da internet. Pretendo colocá-lo aqui em breve.
PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA (Affonso Romano de Sant'Anna)
Parem de jogar cadáveres na minha porta.
Tenho que sair
– respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra
a ouvir o que diz a água daquelas fontes
e acompanhar o desenho imperturbável dos zeligs.
Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto
e de semear pregos por onde passo.
Estou em Essauíra, na costa do Marrocos
olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas ao redor de Diamantina.
Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombra
e abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos
naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.
Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi
frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas
e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.
Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos campos da Toscana
onde a gigante mão de Deus penteia os montes
e minha alma se sente pequenina.
Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
– na Cidade Proibida na China.
Não adianta o clamor de burocráticos compromissos
nem vossa ira. Tenho oito anos
saí para nadar naquele açude atrás dos morros
e vou pescar a minha única e inesquecível traíra.
Parem de jogar cadáveres na minha porta
na minha mesa
na minha cama
dificultando
que alcance o corpo da mulher que amo.
Afastem de mim
o meu
o vosso cálice.
Impossível ficar no tempo que me coube
o tempo todo
preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
como um Sísifo moderno
desesperado
julgar
– que o tinha que carregar.
3 X NIETZSCHE (Affonso Romano de Sant'Anna)
Deus
não precisa da autorização de Nietzsche
para existir
nem de fanáticos que declaram guerra
aos infiéis.
Deus
– ou que nome se lhe dê –
não necessita de preces, lágrimas, promessas.
Deus sequer lê poemas.
Na melhor das hipóteses
– os escreve
mas não assina
nem os divulga.
Na verdade, não necessita sequer
de nossa leitura.
Ele está em todas as partes
e acha vã nossa procura.
E quando lê livros de filosofia, ri,
soberano
– de nossa loucura.
Quando Deus tomou conhecimento
das teorias de Nietzsche sobre a "morte de Deus"
estava, como sempre, ocupado
em fazer e refazer galáxias
pelo elementar prazer divino
de recriar-se eternamente.
Desconsolado, então,
Nietzsche se matou.
Pesaroso, Deusfoi ao seu enterro
como não podia deixar de ser.
Ele vai ao Grande Mercado Nietzsche
adquirir artefatos para seu discurso.
Há ferramentas para multiuso
abrem e fecham qualquer porta
e conceito.
Na entrada
deve-se pegar um cestinho
para colher o que se pode das prateleiras.
Se não se acha o que se procura
basta ir um quarteirão mais adiante
em duas lojas tudo se encontrará
– uma se chama Foucault
– a outra Derrida.
domingo, 19 de junho de 2011
Gonçalo M. Tavares I
Deixo aqui o registro de algumas das belas páginas "poético-aforísticas" do Breves Notas Sobre o Medo, de Gonçalo M. Tavares.
Problemas, respostas
A matéria-prima, falemos assim, da resposta parece ser de menor valor cambial que a da pergunta. Isto se as colocarmos – pergunta e resposta – no mercado dos homens em cuja existência a curiosidade tomou o seu centro. No entanto, como bem sabemos, estes homens são uma minoria. Em todos os outros mercados (e há tantos), prevalecem homens que decidem sobre a vida e a morte de outros, homens cujo destino lhes mostrou já um lado trágico, inultrapassável; e nestes outros homens, nestes outros mercados, cada resposta é o único valor a ser transmitido. Aos seus filhos, por herança, esses homens deixarão decisões e modos de viver; enquanto de oferta às pessoas que odeiam deixarão aquilo que não conseguiram resolver em vida – tal como, para assustar, os criminosos deixam, à porta do inimigo, a cabeça degolada de um cavalo.
Os imortais
Como um poeta que se esforçasse por ser elogiado por outra coisa – que não a fragilidade que exige de imediato uma coragem – , certos homens insistem em não esperar a morte e devido a essa distração são sempre apanhados – como a mulher adúltera pelo marido – descompostos, de corpo desnudado, exibindo por falha uma luz imoral que sempre juraram não ter.
E porque observados, e incapazes – eis o pior – de acionar o mais leve movimento de pudor, os que fingiam imortalidades caem por completo sem um único preparativo terminado. Morrem no momento em que traem, quando os velhos manuscritos aconselham a acabar-se a vida na posição do sacrificado, na figura daquele que outros enganaram e que outros venceram.
Falar, ouvir
Tratas as palavras que dizes como se fossem passageiros de primeira classe e tu um empregado servil e, face às palavras dos outros, comportas-te como se elas fossem o empregado servil e tu o passageiro que viaja em primeira classe.
Moral
Eis então – porque nada em ti caiu de podre – que morres contente como se tivesses nascido já dentro de um jogo e todas as tuas ações fossem no sentido de, com delicadeza, perceber primeiro as regras e só depois decidir em que equipe se combate e quais os objetivos e movimentos possíveis. Porém, há jogos complexos cujas regras parecem ter sido feitas para que nenhum mortal as consiga perceber.
Trata-se de jogar, insiste contigo o mundo. Mas com que regras?, insistes tu com o mundo. E a resposta acaba sempre por chegar no momento ou no espaço errados. Ou então numa Língua da qual conheces dois ou três vocábulos, insuficientes sequer para, à hora da refeição, num restaurante, escolheres o prato certo.
Acalma-te!
Mesmo que desças até o ponto em que deixas de observar a claridade da superfície, não te inquietes demasiado, pois a superfície do mundo, também ela, em poucas horas (a noite aproxima-se) ficará escura.
Problemas, respostas
A matéria-prima, falemos assim, da resposta parece ser de menor valor cambial que a da pergunta. Isto se as colocarmos – pergunta e resposta – no mercado dos homens em cuja existência a curiosidade tomou o seu centro. No entanto, como bem sabemos, estes homens são uma minoria. Em todos os outros mercados (e há tantos), prevalecem homens que decidem sobre a vida e a morte de outros, homens cujo destino lhes mostrou já um lado trágico, inultrapassável; e nestes outros homens, nestes outros mercados, cada resposta é o único valor a ser transmitido. Aos seus filhos, por herança, esses homens deixarão decisões e modos de viver; enquanto de oferta às pessoas que odeiam deixarão aquilo que não conseguiram resolver em vida – tal como, para assustar, os criminosos deixam, à porta do inimigo, a cabeça degolada de um cavalo.
Os imortais
Como um poeta que se esforçasse por ser elogiado por outra coisa – que não a fragilidade que exige de imediato uma coragem – , certos homens insistem em não esperar a morte e devido a essa distração são sempre apanhados – como a mulher adúltera pelo marido – descompostos, de corpo desnudado, exibindo por falha uma luz imoral que sempre juraram não ter.
E porque observados, e incapazes – eis o pior – de acionar o mais leve movimento de pudor, os que fingiam imortalidades caem por completo sem um único preparativo terminado. Morrem no momento em que traem, quando os velhos manuscritos aconselham a acabar-se a vida na posição do sacrificado, na figura daquele que outros enganaram e que outros venceram.
Falar, ouvir
Tratas as palavras que dizes como se fossem passageiros de primeira classe e tu um empregado servil e, face às palavras dos outros, comportas-te como se elas fossem o empregado servil e tu o passageiro que viaja em primeira classe.
Moral
Eis então – porque nada em ti caiu de podre – que morres contente como se tivesses nascido já dentro de um jogo e todas as tuas ações fossem no sentido de, com delicadeza, perceber primeiro as regras e só depois decidir em que equipe se combate e quais os objetivos e movimentos possíveis. Porém, há jogos complexos cujas regras parecem ter sido feitas para que nenhum mortal as consiga perceber.
Trata-se de jogar, insiste contigo o mundo. Mas com que regras?, insistes tu com o mundo. E a resposta acaba sempre por chegar no momento ou no espaço errados. Ou então numa Língua da qual conheces dois ou três vocábulos, insuficientes sequer para, à hora da refeição, num restaurante, escolheres o prato certo.
Acalma-te!
Mesmo que desças até o ponto em que deixas de observar a claridade da superfície, não te inquietes demasiado, pois a superfície do mundo, também ela, em poucas horas (a noite aproxima-se) ficará escura.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Rosane Duá
No corre-corre desenfreado que caracteriza os meus dias (e os vossos?) nos tempos atuais, às vezes, cometo atrasos imperdoáveis tanto em leituras quanto no escutar íntimo e particular de gravações, que frequentemente se acumulam em estantes e arquivos, à espera do abençoado momento do desfrute.
É com o atraso de pelo menos um ano que desfruto o CD Todos Nós, de Rosane Duá.
Cercada de músicos e compositores de talento incontestável, veteranos de peso da nossa história musical, como Jota Maranhão, Juca Filho, Jorge Vercilo e Mingo, Rosane Duá conta com Theo Santos como produtor musical, instrumentista e arranjador. Só este detalhe já imprime dose considerável de nobreza ao trabalho.
Theo Santos é um dos músicos mais geniais que conheci. Além de ser uma pessoa culta, generosa e delicada no trato, possui a capacidade rara de ouvir com atenção e ternura qualquer frequência sonora audível, da mais simples tagarelice ao mais nobre resmungo, sussurro ou latido, processando-a em criações artísticas surpreendentes.
Theo Santos é uma figura ímpar no meio musical, digo, no Brasil, digo, no mundo, dessas que marcam para sempre qualquer alminha que tenha o privilégio de cruzar o seu caminho.
Há pessoas que parecem a nós, pobres mortais, pertencentes ao rol de privilegiados que têm passe para os inalcançáveis vales do Éden!
A bonita Rosane Duá, arquiteta, artista plástica de primeira, especialista na sedutora arte dos mosaicos, revela-se agora a mim como uma incrível cantora (e compositora): voz impecável, timbre-carícia, maestria no apoio, sensibilidade no dizer e na emoção do cantar.
Tiro meu chapéu pra você, Rosane Duá!
E obrigada pela chance de ouvi-la, mesmo que tardiamente.
É com o atraso de pelo menos um ano que desfruto o CD Todos Nós, de Rosane Duá.
Cercada de músicos e compositores de talento incontestável, veteranos de peso da nossa história musical, como Jota Maranhão, Juca Filho, Jorge Vercilo e Mingo, Rosane Duá conta com Theo Santos como produtor musical, instrumentista e arranjador. Só este detalhe já imprime dose considerável de nobreza ao trabalho.
Theo Santos é um dos músicos mais geniais que conheci. Além de ser uma pessoa culta, generosa e delicada no trato, possui a capacidade rara de ouvir com atenção e ternura qualquer frequência sonora audível, da mais simples tagarelice ao mais nobre resmungo, sussurro ou latido, processando-a em criações artísticas surpreendentes.
Theo Santos é uma figura ímpar no meio musical, digo, no Brasil, digo, no mundo, dessas que marcam para sempre qualquer alminha que tenha o privilégio de cruzar o seu caminho.
Há pessoas que parecem a nós, pobres mortais, pertencentes ao rol de privilegiados que têm passe para os inalcançáveis vales do Éden!
A bonita Rosane Duá, arquiteta, artista plástica de primeira, especialista na sedutora arte dos mosaicos, revela-se agora a mim como uma incrível cantora (e compositora): voz impecável, timbre-carícia, maestria no apoio, sensibilidade no dizer e na emoção do cantar.
Tiro meu chapéu pra você, Rosane Duá!
E obrigada pela chance de ouvi-la, mesmo que tardiamente.
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