Arte, poesia, cinema, literatura, música, cultura popular: reflexões, considerações, aforismos, poemas...
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Waly Salomão
Dedico à minha sobrinha Isadora, amante fiel de viagens por esse mundão afora, um poema de Waly Salomão, do livro Algaravias, não sem antes avisá-la de que ele provavelmente só terá sido capaz de emitir aquela poética opinião após muitas viagens.
Antiviagem
Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.
Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?
Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?
Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal de Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.
Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
Meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um para-choque.
Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.
Medito à beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:
EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.
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sexta-feira, 9 de maio de 2014
Blue Jasmine
Blue Jasmine: novo filme de Woody Allen (2013), com Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, entre outros.
Uma obra-prima! Com uma impressionante e magnífica atuação de Cate Blanchett.
O filme é denso e aborda, de forma ao mesmo tempo enxuta e profunda, as complexidades psíquicas de alguns modelos de nossas possíveis atuações no mundo, de capacidades e incapacidades, (in)adaptabilidades, cegueiras, fragilidades e limites.
O título é lindo e faz contraponto perfeito com a densidade, a amargura, o peso e a acidez do tema que sublinha toda a trama.
O humor woodyalleniano se dissolve, a meu ver, na dura carga emocional que prevalece durante todo o tempo; mas ameniza a dor que porventura possamos sentir diante das retratadas, reais e metafóricas, encruzilhadas insuportáveis, ou vias sem saídas aparentes, em que topamos repetidamente nesta vida.
Roteiro, tomadas de cena, fotografia, atuações, flashbacks, agilidade de câmera em ambientes diferenciados, respeito e atenção às nuances da evolução do estado psíquico da personagem principal, tudo em perfeito encaixe, como numa performance orquestral de sensibilidade e cuidado.
Mas tem luz absolutamente própria esta versão de Woody Allen, distribuindo cores, além de espetadelas e arrepios, particulares de seu estilo e genialidade.
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segunda-feira, 14 de abril de 2014
Ao vento
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Ao vento
Bem que eu poderia aceitar
todos os verbos e silêncios descabidos
para me manter em trincheiras sóbrias
de vazios e destroços corrosivos
mas me acendo no ouro
exuberante e aflito desta tarde
e com meus olhos voltados para o mar
sigo embalando contente o horizonte
para brindar com Deus o viço deste mundo
mas Ele insiste na costumeira esquiva tola
de neblinas e circunstâncias fugidias
sem contar que não perderia tempo com poetas
muito menos comigo
eu e minhas poucas rezas num mar de quinquilharias
Vera Versiani
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Feras de lugar nenhum
"Feras de Lugar Nenhum", de Uzodinma Iweala / ed. Nova Fronteira.
Um soco no estômago.
É a definição cabível para este livro.
Há coisas nesta vida que mal imaginamos que possam existir.
Para isso se faz necessário alguém, como o autor (Uzodinma Iweala nasceu em 1982, ou seja, tem hoje 32 anos) para nos trazer à tona uma realidade trágica, cruel, uma faceta do que amiúde criamos cega e insanamente em nosso mundo de medos, violências, inconsciências, ignorâncias, sofrimentos, tristezas que preferimos jogar para debaixo de nossos tapetes egoístas ainda circunstancialmente protegidos.
Um texto vigoroso, com uma escrita simples, de velocidade alucinante, que não nos deixa largá-lo nem por um minuto da primeira à última linha.
Uzodinma Iweala é hábil, poderoso em sua função de escritor, mas vai muito além do que minha expectativa de leitora pode almejar: abre mundos, revolve vísceras, faz refletir e me coloca definitivamente no sempre necessário movimento construtivo na superfície desta terra. Pede ações, urgências, óbvias atenções, indignações expressas e transparentes.
A ternura que forra o suor e sangue da narrativa me impulsiona ainda mais profundamente na direção da procura eficaz de mecanismos para a construção de alicerces para o bem, para o amor, para a resistência.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Eles eram muitos cavalos
Impressionante o livro Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato (ed. Record)! Muito bom.
Linguagem ágil, rica, na construção de um mosaico, uma colagem, que retrata a cidade de São Paulo através de personagens escolhidos a dedo na composição de uma grande dor, de uma gigantesca injustiça, de uma calamidade social assustadora que nos prega no chão de nossa impotência, covardia ou ignorância.
Ao mesmo tempo, é poesia pura.
Há ternura, compaixão e até esperança na exposição de um ruidoso painel de angústias e desacertos.
Na verdade, os personagens de Ruffato representam muito mais do que viventes de uma "macrópole" nacional. Deixam escapar todas as possíveis querelas e súplicas de um mundo urbano opressivo e violento!
"Para Ruffato, o homem é o cavalo na sua brutalidade, na sua vocação bestial para rebanho desgarrado. Cavalos caídos por aí, batendo os cascos nos cimentos das calçadas, lutando ferozmente pela sobrevivência, cumprindo seu duro serviço" (Raquel Naveira).
Aí vai trecho do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, em que Ruffato se inspirou para dar título ao livro:
Romance LXXXIV ou Dos Cavalos da Inconfidência
Eles eram muitos cavalos,
ao longo dessas grandes serras,
de crinas abertas ao vento,
a galope entre águas e pedras.
Eles eram muitos cavalos,
donos dos ares e das ervas,
com tranquilos olhos macios,
habituados às densas névoas,
aos verdes, prados ondulosos,
às encostas de árduas arestas;
à cor das auroras nas nuvens,
ao tempo de ipês e quaresmas.
Eles eram muitos cavalos
nas margens desses grandes rios
por onde os escravos cantavam
músicas cheias de suspiros.
Eles eram muitos cavalos
e guardavam no fino ouvido
o som das catas e dos cantos,
a voz de amigos e inimigos;
- calados, ao peso da sela,
picados de insetos e espinhos,
desabafando o seu cansaço
em crepusculares relinchos.
Eles eram muitos cavalos,
- rijos, destemidos, velozes -
entre Mariana e Serro Frio,
Vila Rica e Rio das Mortes.
Eles eram muitos cavalos,
transportando no seu galope
coronéis, magistrados, poetas,
furriéis, alferes, sacerdotes.
E ouviam segredos e intrigas,
e sonetos e liras e odes:
testemunhas sem depoimento,
diante de equívocos enormes.
Eles eram muitos cavalos,
entre Mantiqueira e Ouro Branco
desmanchado o xisto nos cascos,
ao sol e à chuva, pelos campos,
levando esperanças, mensagens,
transmitidas de rancho em rancho.
Eles eram muitos cavalos,
entre sonhos e contrabandos,
alheios às paixões dos donos,
pousando os mesmos olhos mansos
nas grotas, repletas de escravos,
nas igrejas, cheias de santos.
Eles eram muitos cavalos:
e uns viram correntes e algemas,
outros, o sangue sobre a forca,
outros, o crime e as recompensas.
Eles eram muitos cavalos:
e alguns foram postos à venda,
outros ficaram nos seus pastos,
e houve uns que, depois da sentença
levaram o Alferes cortado
em braços, pernas e cabeça.
E partiram com sua carga
na mais dolorosa inocência.
Eles eram muitos cavalos.
E morreram por esses montes,
esses campos, esses abismos,
tendo servido a tantos homens.
Eles eram muitos cavalos,
mas ninguém mais sabe os seus nomes
sua pelagem, sua origem...
E iam tão alto, e iam tão longe!
E por eles se suspirava,
consultando o imenso horizonte!
- Morreram seus flancos robustos,
que pareciam de ouro e bronze.
Eles eram muitos cavalos.
E jazem por aí, caídos,
misturados às bravas serras,
misturados ao quartzo e ao xisto,
à frescura aquosa das lapas,
ao verdor do trevo florido.
E nunca pensaram na morte.
E nunca souberam de exílios.
Eles eram muitos cavalos,
cumprindo seu duro serviço.
A cinza de seus cavaleiros
neles aprendeu tempo e ritmo,
e a subir aos picos do mundo...
e a rolar pelos precipícios...
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Woody Allen
De "Sem Plumas", livro de textos hilários de Woody Allen, publicado em 1975:
(tradução de Ruy Castro)
[Se os Impressionistas Tivessem Sido Dentistas]
Prezado Theo,
Até quando a vida será tão ingrata?
Estou roído pelo desespero e minha cabeça lateja!
A Sra. Sol Schwimmer está me processando porque fiz sua ponte de acordo com minha própria inspiração,
e não para se ajustar à sua ridícula boca.
Mas é claro! Não sou um comerciante barato para trabalhar de encomenda!
Achei que sua ponte devia ser enorme e exuberante, com dentes selvagens e explosivos,
apontando para todas as direções.
E agora ela está aborrecida porque eles não cabem em sua boca.
É tão burguesa e burra que gostaria de matá-la!
Tentei fazer com que a ponte entrasse à força, mas os dentes continuam para fora como pingentes
de um candelabro.
Para mim, está lindo! Mas ela reclama que não consegue mastigar.
E que importa se ela consegue mastigar ou não?
Theo, não vou suportar isto por muito tempo.
Perguntei a Cézanne se ele dividiria o consultório comigo, mas Cézanne está velho,
suas mãos tremem e, para segurar os instrumentos, têm de ser amarrados em seus pulsos.
Com isso, falta-lhe precisão e, ao trabalhar na boca de alguém, faz mais estragos que consertos. O que fazer?
Vincent.
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terça-feira, 5 de novembro de 2013
Denise Stoklos
Eis um dos releases:
“CARTA AO PAI”, de Kafka
Montagem de “Carta ao Pai”(ou “Vamos Trocar Feromônios”) inserida no repertório permanente do “Teatro Essencial”, que completa 45 anos. Implícito o agradecimento ao Sesc SP, na pessoa admirável do professor Danilo Santos de Miranda, que tem me apoiado continuamente e a tantas outras companhias teatrais.
Sigo nesta montagem minha linha de trabalho na qual o ator é o fundamento da cena e sua contingência sociopolítica é o ponto de interpretação. Nesta “Carta ao Pai” entrego fragmentos do texto de Kafka.
Não pude deixar de atribuir ao filho espancado moralmente pelo pai deste texto clássico, como subtexto, o “povo brasileiro” e o pai o “estado” e mais aproximadamente ainda o filho a “classe teatral” e o pai as instituições que a destituem...
O teatro, que é “reflexão para a liberdade”, não faz girar o mundo de negócios, antes, é inconveniente até para o “mundo que gira”, que conta, acumula, mas pouco reflete. Que o resultado seja uma sincera letra de cancioneiro popular sertanejo autêntico. Um apontamento da dor psíquica imensa no qual nossas origens, o Pai/Caipira/Brasil vem “fazendo picadinho” de seus filhos em seus anseios de considerar-se corpo digno de existir. Um sistema que tende a esquecer caminhos que libertam. Tendo por base o levantamento de uma memória de 45 anos de experiência, que isso seja como um alerta para que histórias não se percam. É sempre e cada vez mais hora de Kafka, não?
Denise Stoklos
agosto 2013
Não pude deixar de atribuir ao filho espancado moralmente pelo pai deste texto clássico, como subtexto, o “povo brasileiro” e o pai o “estado” e mais aproximadamente ainda o filho a “classe teatral” e o pai as instituições que a destituem...
O teatro, que é “reflexão para a liberdade”, não faz girar o mundo de negócios, antes, é inconveniente até para o “mundo que gira”, que conta, acumula, mas pouco reflete. Que o resultado seja uma sincera letra de cancioneiro popular sertanejo autêntico. Um apontamento da dor psíquica imensa no qual nossas origens, o Pai/Caipira/Brasil vem “fazendo picadinho” de seus filhos em seus anseios de considerar-se corpo digno de existir. Um sistema que tende a esquecer caminhos que libertam. Tendo por base o levantamento de uma memória de 45 anos de experiência, que isso seja como um alerta para que histórias não se percam. É sempre e cada vez mais hora de Kafka, não?
Denise Stoklos
agosto 2013
Temas universais (amor, paixões, impenetrabilidade dos eus, violências, biografias e suas incontáveis possibilidades de leituras, opressão, liberdade, grades, cercas, prisões, vigilâncias, desejos...) tratados de maneira inteligente, sincera e, o que é melhor, bem-humorada.
Denise Stoklos aprimora a cada dia seu dizer através do corpo e gestual: movimentos e expressões que conseguem, para nosso proveito, fazer desfilar em bandeja de prata o que de melhor pode nos ser oferecido produtivamente para reflexões em todo âmbito de nossas vidinhas e picuinhas.
Seu teatro essencial é grandioso, de múltiplos desdobramentos e significados que se entrelaçam. Não é só aquele em que "o ator é o autor, diretor e coreógrafo de si mesmo". Ele é também o pão oferecido a nós – pobres mortais pecadores, de frequentes ingenuidades, inconsciências, ignorâncias, cegueiras e boas intenções inapropriadas ou ferinas – como recriação de um milagre bíblico em que encontramos multiplicado o alimento capaz de nos possibilitar luz, calor e esperança, além de boa dose de se-mancol, é claro.
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