terça-feira, 28 de maio de 2024

 SORTE  


Entendes que desentendo a linguagem do mundo?

Entendes que subentendo de pouco um tudo?


O rumor do caos fluindo no descampado

insinua-se em frestas de lofts embrutecidos.


Não há pontes que se estendam do nada ao nada.

Nem há clareiras em desertos infinitos.


Em lombo de imensidão que se oferece fardo,

somos condenados a sede, fome, coceiras de mosquitos.


Entendes que não nos contenta, é prejuízo,

calarmo-nos, contermo-nos, submetermo-nos ao largo?


Sorte é a de sermos sempre ou vez por outra 

a poesia simples do dividir o tacho

e, em silêncios, zaps, libras, o que for, diacho!,

servirmo-nos plenamente à mesa-idílio,

honrarmos almas com o vinho maturado

e largarmos a escopeta bem no fundo do estribilho.


(Vera Versiani)

quarta-feira, 20 de maio de 2020


God Save The Tupiniquins

Espero ansiosamente que entremos logo numa nova fase de enfrentamento e adaptação à pandemia que exclua as execráveis LIVES.
Santo Cristo! O que é isto? Uma baboseira sem fim, uma ainda incompreensível exposição de lados indigestos de várias moedas. Uma perda de tempo que engole boa parte de meus pares em horas desperdiçadas em pouca produtividade e consumo inócuo de uma espécie de Big Brother “artístico” em que raramente se vê arte em seu conceito estrito e, por que não?, digno.
O excesso nos degrada, avilta e aniquila em qualquer contexto.
Não há como contribuir socialmente para a construção de caminhos que possam nos iluminar a todos se dermos ouvidos a tanto palavrório externo.
Constrangedoras são as tietagens (que perduram desde tempos pré-pandemia) que se tornaram valores mórbidos comuns na sociedade.
Constrangedores são o bradar e o espernear coletivos de artistas que tentam segurar desesperadamente a chance de alguma voz na mídia ou de garantir seu dim-dim a médio e longo prazos.
A arte tem se excluído da arte.
Boa parte das LIVES anda se lixando para a arte.
Precisamos arregaçar as mangas de fato, minha gente, e construir do zero o que já estava no zero.
O pensar já é um começo. Mas para isso é necessário que sejam desligados os aparelhos que veiculam as impostas baboseiras, sem medo de ser feliz, sem medo do sentimento imbecil e ameaçador de “Grande Perda” que possa nos afligir.
Não nos percamos de nós mesmos!
E, antes que eu me esqueça, FORA BOLSONARO!

domingo, 13 de agosto de 2017


Ai que saudade do Drudo! Ele, com certeza, recortaria e me entregaria, carinhosamente, em mãos, para meu deleite e reflexão, o seguinte artigo, de autoria do colunista Marcio Tavares D'Amaral, que copiei de O Globo ontem:


Acédia de Deus

Acédia” é uma palavra de uso raríssimo. Restringe-se quase ao elenco dos pecados capitais. É em geral lida como “preguiça”. Nas origens não foi óbvio pô-la nessa posição. Evágrio do Ponto, no século IV, propôs oito pecados. Entre eles, ao lado da preguiça, a melancolia. No século VI Gregório I juntou a melancolia e a preguiça na indolência. Tomás de Aquino, no século XIII, considerou a melancolia demasiadamente vaga, e pôs a preguiça nesse lugar de abandono de si, da relutância à ação. Os oito pecados de Evágrio acabaram sete, e são os que até hoje conhecemos. Entre eles a acédia. Ando preocupado com a possível acédia de Deus.

Vamos com calma. Deus não peca. Pecado, termo hoje fluido no léxico habitual, é uma dessas palavras traiçoeiras, que julgamos entender e passamos adiante. Não é. Banalmente associou-se o desvio categórico da Humanidade (“Adão”, o homem, e “Eva”, a cheia da vida) ao sexo, à luxúria. E chamou-se a isso o “pecado original”. É pouco. Original, o sexo? Terá talvez sido o orgulho, o desejo de ser igual a Deus conhecendo o segredo da vida e o sentido do bem e do mal, o pecado “originário”: o que deu origem a uma Humanidade separada do Absoluto. Mas a palavra tem um sentido mais largo. Vem do hebraico chata’th, e foi traduzida em grego por hamartia. Em ambas as línguas significa “errar o alvo”. A Humanidade, desligada da sua raiz transcendental, às vezes tem problemas de mira. Acerta e erra, e essa é a sua natureza. Ora, Deus não erra. Sua pontaria é certeira. Dizendo curto: Deus não peca. Ainda assim, tenho medo da acédia de Deus.

Deus não padece de preguiça. Criou o mundo com sua extraordinária complexidade. E continua criando. O mundo não está completo, graças a Deus. A ele e a nós, suas criaturas-semelhantes. Nós somos chamados à com-criação. Essa bonita ideia da mística judaica dá conta de uma das dimensões da “imagem e semelhança”. Fomos feitos livres, à imagem da libérrima pessoa de Deus, e ainda quisemos mais, e nos separamos dele. A Humanidade é o sinal dessa separação. Deus está lá, e espera. Estará triste com o nosso abandono? Quem saberá dessas coisas altíssimas? Está lá e não desistiu de nós. Por isso continua criando um mundo que possa ser uma ponte para a nossa volta. E como na liberdade está embutida a capacidade de criação, também criamos, junto com ele, pedaços dessa passagem. Erigimos religiões, teologias e altares para o reencontro e a religação. Talvez estejamos errando o alvo, mas não desistimos de tentar. É por esse duplo movimento que podemos dizer, como se o soubéssemos de verdade: Deus não é preguiçoso, não descansou. Trabalha. Em si mesmo e em nós. Não é essa a acédia de Deus.

Mas há a melancolia. A tristeza. Deus pode estar triste? Quem saberá dessas coisas altíssimas? Mas teria motivos. Não que não haja, entre os sete bilhões de pessoas que hoje esmagam o planeta, os bons e generosos, os humildes e alegres, os santos da vida. Mas, no atacado, vamos muito mal. Pode-se dizer que nunca foi diferente. Que sempre, aqui e ali, as guerras, as fomes, as injustiças e o desamor apedrejaram as criaturas de Deus. É verdade. Mas agora o Mal se planetarizou. O Mal no atacado, a generalização do Mal, sua simultânea obscenidade e banalização podem, quem sabe, pôr sombra no coração amoroso de Deus. “Criados à imagem e semelhança” não pode também significar que Deus conserva em si a nossa imagem, e que (mas quem saberá dessas coisas imensíssimas?) às vezes ela lhe pesa no coração? A tristeza de Deus! Que ideia absurda! Fora dos trilhos. Sim, extra-ordinária. Nós quisemos o ordinário de uma vida dominada pela nossa vontade. Em termos religiosos tradicionais, isso significa: nós quisemos abandonar o Paraíso. Mas o extra-ordinário não nos abandonou. Ressoa na nossa memória. Não será que nós também (porque a semelhança não é unilateral) ecoamos no tempo sem memória de Deus? Ele não nos sentirá, continuamente? Se for assim (mas, Senhor, quem saberá dessas coisas sutilíssimas?), tem todo o direito de estar profundamente triste. A acédia silenciosa de Deus.

Bento XVI perguntou diretamente: “Senhor, por que silenciaste?” E era o papa! Como devemos nos sentir nós, o povo comum, diante da possibilidade de que, abandonado tão rudemente uma vez, ele agora possa estar pensando em consumar o abandono? Não o fará, sua natureza totalmente amorosa, em que é a bondade que determina a justiça, o vencerá na última hora. Quando o Anjo já tiver a espada erguida sobre nós. (Parece que já tem...) Não conhecemos verdadeiramente Deus. Não saberemos nunca se essa cena poderia se apresentar. É não sabermos, não podermos saber, que põe na espera do golpe a esperança de que não venha. Esperança assustada. Mas melhor do que coisa alguma. Melhor do que nada.


.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Um poema de Ana Martins Marques:


Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegarmos a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Numa Rua Chamada Gago Coutinho




Chove.
O arredondado múltiplo de guarda-chuvas compõe uma esteira colorida sob minha janela.

O porteiro do prédio em frente mastiga seu sanduíche enquanto vaga o olhar pelo cinza histérico do asfalto vigiado pelo teto verde das amendoeiras.

O homem das frutas se protege com o toldo improvisado e um capuz.
Ninguém para pechinchar o colorido frugal reluzente da bancada.

Nesta dobra de esquina, esticada até o largo onde descansam os olhos de Deus,
esse derramar esbelto, retocado em brilhos e toques sonolentos,
um coroar de umidade rala,
uma preguiça lânguida
de buzinar longínquo.

Nenhum pássaro.
Nenhum mico.
Nenhum esquilo.
Nenhum excepcional pensamento.

Vozes e sons dispersos.
Um latido de cachorro por detrás de uma vidraça.
O badalar de um sino.

Até parece que a vida anda mansa
e que mórbidas ilusões, guerras, golpes,
traições, tramoias, mamatas, artimanhas
fugiram céleres do dicionário.

Vez por outra:
vontade de atender ao chamado masai
e me abrigar com os ventos                  
na cratera de ngorongoro,

vontade de galgar os céus de infinitos mistérios
e me garantir uma vaga entre o silêncio galáctico sumidouro.

Quedo-me entre acasos e sonhos,
além de previsíveis enganos.

Agora é noite.
Bem tarde.
Há encantos e pavores.
Morcegos amam amendoeiras.
O tempo e seu bordejar confuso
de forçosos  contornos e aragens
só fazem plantar incoerências
em suas frouxas margens.

Mas eu, que já me contento
com o andar de tamancos,
os desejos restritos
e o simples saber que
Gago Coutinho não era gago,
debruço-me sobre os segredos desse mundo árido
e atiro uma flor à quietude
do soturno largo.

(Vera Versiani)



.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Nave Mãe


Nave Mãe


I

mãe-Nave, mãe-Terra,
nesse novo nascer
de sol e de sonhos
de sopros e sons
volteios e vinhos
moldando vontades

receba meus olhos
cansados e lentos
perdidos nas curvas
de seu riso abalado
onde esconde segredos 
de refugiados

II

seus porões sufocantes
suas horas tristes
suas letras dispersas
seus poemas não feitos
seu comércio lícito
de inutilidades

seu canto indisposto
seu tédio maldito
suas pétalas murchas
suas cores máculas
no circuito de medo
que açoita o viver

sua sombra em meus ombros
com o peso da fome
seu farol apagado
sob meus pés de lama
e a gosma nojenta
de seu orgulho e vaidade

seus invólucros rotos
sua roça distante
das bocas famintas
seus terrores em cultos
seus gritos medonhos
sua indiferença

III

Libertemos a nave, ó Mãe,

quebremos a rude métrica
em qualquer canto da casca
do árido ao úmido chão
do verde gigante ao gelo
que ainda vicejam sonhos
e por certo o sol se põe

Libertemos os pássaros, ó Mãe,

suas vilas em vis destroços
seus muros, seus 1001 trapos
muletas, esparadrapos
 o cansaço da velha voz
a podre humilhação
do self desfigurado

Libertemos o bicho, ó Mãe,

e o lixo acumulado
em corações e regaços
cumprindo espaço no tempo

viremos tripas ao avesso
para revelar o pedaço
de bem e luz que mereço

(Vera Versiani)




.

quarta-feira, 23 de março de 2016



The Grand Budapest Hotel – um pequeno registro:

Filme anglo-alemão (2014)

Diretor: Wes Anderson

Música: Alexandre Desplat   (A Árvore da Vida, The King's Speach, The Queen, Julie e Julia, The Ghost Writer...)

Com: Ralph Fiennes, Tony Revolori, F.Murray Abraham, Mathieu Amauric, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jude Law, Bill Murray, Edward Norton, Hervey Keitel, Saoirse Ronan, Léa Seidoux, Tilda Swinton e outros.

Com um elenco desses, bom roteiro e boa direção, e com a música de Alexandre Desplat, dificilmente deixaríamos de ter um excelente filme. Muito bom mesmo.

É um filme cult, a meu ver, mas leve, não reflexivo e "cabeça" em demasia, comédia em dose equilibrada.

Um roteiro que traz uma história que beira a extravagância, sem preocupação com plausibilidades ou viabilidades, que nossas limitadas realidades diárias mundanas já nos impõem suficientemente.

Fotografia boa (Robert Yeoman), belas cenas, enquadramentos ótimos. Cores fortes, mas não gritantes, amenas, sem contrastes almodovarianos; cenários originalíssimos.

Algumas cenas, na minha opinião. dispensáveis, um pouco over, algo que tende a provocar dispersão, ainda mais em se tratando de uma história dentro de uma história dentro de outra história.

Mas não deixa de ser um filme bem cuidado; um filme decididamente para quem aprecia arte.
Aliás, a direção de arte fica por conta Stephan Gessler ( de Inglorious Bastards, Ninja Assassin, Anonymous, entre outros).

Algo também digno de nota é que o roteiro foi inspirado em textos de Stefan Zweig (poeta, escritor, dramaturgo austríaco, que, fugido do nazismo, viveu aqui no Brasil e faleceu (suicidou-se) em Petrópolis, na década de 1940 aos 62 anos, embora fosse na época um escritor já famoso e dos mais vendidos no mundo.


.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Registro de Encontro na Favela de Santa Marta






Fiquei encantada com o público de jovens que nos prestigiou ontem, dia 30 de outubro de 2015, na Favela de Santa Marta, na confraternização do pessoal do programa "Cidade, Mudanças Climáticas e Ação Jovem".

Quando chegamos o funk e o passinho rolavam (linda a dança e o contágio coletivo daquela arte 
criada em grupo; que beleza a interação dançante expressiva da grande roda). O som altíssimo forrava o contexto.

No intervalo antes do samba, o grupo cênico-musical Eco do Santa Marta entrou em cena como de costume: acústico, "leve", com Poesia & Música & Dizeres.

Impressionantes foram o silêncio acolhedor naquela laje, a atenção, o interesse manifesto, a reverência, o respeito a nosso trabalho e, é claro, ovação e pedidos de bis finais. Bom demais ter um exemplo dessa grandeza.

Fiquei orgulhosa de pertencer ao Grupo Eco e de ser brasileira! A luz já está aí. Não precisamos 
esperar o fim do túnel. O Brasil tem jovens já educados e preparados para construções dignas, jovens que sabem ouvir, aprender, ensinar e compartilhar. 

Estamos juntos, meus caros.

Abrações.
(a comida estava divina, é bom frisar. Muito chic. Parabéns à organização)





.

sábado, 9 de janeiro de 2016

A Rainha Ginga



A Rainha Ginga (José Eduardo Agualusa) – ed. Foz


Um padre brasileiro (Francisco José de Santa Cruz), em crise de fé, narra sua história (mais, muito mais, do que a história da tal Rainha Ginga).

Ele, que nascera em Olinda, no Brasil, no século XVI, foi para o reino do Congo, na África, e, por ser instruído em letras, acaba por servir como secretário da senhora dona Ginga, irmã do rei do Dongo. A partir daí a narração ganha corpo e se desenvolve.

Descreve-nos um mundo cruel, de violências e cobiças. Uma época que passou, mas que ainda vive de alguma forma hoje em nós, herdeiros da história, filhos que dão continuidade muitas vezes aos horrores e brutalidades de nossos antepassados.

Nos sertões da África, nos confins do Brasil ou nos porões e convés de embarcações que atravessavam mares, o demo marcou sua presença e o inferno se manifestou de múltiplas formas onde vicejavam a ganância dos homens e o medo.

Me encantei com as descrições de hábitos, costumes, rituais, filosofia e religiosidade de nossos ancestrais.

Também me encantei com as histórias, suas versões de um passado que se projeta definitivo em nossos tempos atuais. 

Instrutivo e cativante é o vocabulário rico a nos abrir olhos, ouvidos e sensibilidades para outros mundos, mundos que estão em nossas vísceras com a força de familiares instintos e pulsões.

"Há mentiras que resgatam e há verdades que escravizam", mas a plasticidade da sabedoria embutida nos costumes e nas artes dos povos sempre nos aproximará de sua essência, sem subterfúgios. 



.

Cada Homem é uma Raça (Mia Couto)




Cada Homem é uma Raça (Mia Couto) – ed. Ndjira


Livro de contos.

Absolutamente fabuloso.

Esse moçambicano, biólogo e escritor, professor e jornalista, é um assombro, uma alegria literária.

Sinto-o como um Guimarães Rosa. Usa e abusa da Língua Portuguesa de forma original e cativante.
Conhecer seus escritos é conhecer sobre seu povo e sua cultura, é viajar num tempo que foi, é e será registro de um para sempre.
É literatura que nos arrebata e enleva. É ao mesmo tempo resistência e voz que traz esperança.

Viva Mia Couto!



.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Lila Maia





MELANCOLIA   (Lila Maia)


Levantar,
preparar o café, 
abrir a página qualquer de um livro de poesia.

Sentar diante da folha em branco,
como se a dor tivesse uma certa magia:
é que desespero tem forma, casa, comida.

Não me asfixio.
Deixo ressoar a água de mais um dia
dentro dessa coragem habitual.



OUTRA LEITURA  (Lila Maia)


Aceitei o silêncio humilhado de certas falas,
a mania de varrer o lixo para debaixo do tapete,
as lágrimas fortes como as do chuveiro.
Às vezes ama-se mal.
E o poema não consegue ter
a elegância, a altivez de uma garça.
É só um rato.



UMA VIGÍLIA  (Lila Maia)


Quarenta anos depois
o silêncio da chaleira que ferve.
Na infância, sempre acendi uma vela na outra.
As surras que levei não se enraizaram.
Cada dia soletrei um tempo do verbo partir.
Vivi com a indiferença e a saudade presas ao calendário.

Quarenta anos depois
não sei me despedir da saudade:
continuo ouvindo o arrastar daquele chinelo
número trinta e três pela casa.



MÚSICA  (Lila Maia)


Faço a letra, quando devagar pisas o tapete
e percebo que estou à beira de um violoncelo.
A vida sai tocando próxima ao meu pescoço
acordes tão íntimos que soletro ais.
Somos iguais em cheiros, excessos.

Faço a letra,
porque a noite, a véspera, o dia seguinte
é saber que a música não se aprende de repente.
É necessário repetir sol quase à exaustão.



.




quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Alguns de meus textos para o espetáculo 2014 do Grupo Eco do Santa Marta



Depoimento


Meu nome é Lourdes e eu tenho é muita história para contar.

Vim do Nordeste, de uma região tão esquecida desse Brasil, que até a fome se esquecia que a gente precisava de comer.

Era 1958, quando a seca quase matou todo mundo naquele sertão de Pernambuco, num lugar chamado Lagoinha.

A gente ficava zanzando, procurando alguma coisa no meio do nada, tentando escutar o chocalho das cabras...

Era muita a fome.

Para vocês terem uma ideia, um dia eu vi um vazio imenso, assim como o sol indo embora, assim como oco do espírito na curva da solidão.

Não sei se desmaiei ou o quê.

Só vi quando me deram um mingau e eu acordei.

Difícil foi me recuperar da vergonha.

Fome não é coisa de se ostentar. 




Matrix


Sou índio
Sou negro
Sou branco

Sou povo de um grande país

Sou dendê, farinha d'água, rapadura
Valsa, xote, lundu, samba
Maxixe, quadrilha, coco

Requebros em minha raiz

Sou pinga de macaxeira
Canjica no fogão de lenha
Garapa e água de moringa

Compota de ser feliz

Sou muriqui, borboleta
Frango d'água, tuiuiú
Onça-pintada, peixe-boi
Urubu-rei, arara-azul

Vivendo na corda bamba
Vivendo bem por um triz
Escolho minha caçamba
Escolho minha matriz

Renego a absoluta verdade
Que cala e destrói inclemente
Os sonhos que canto junto
Com a gente que é minha gente



Birosca


Não apenas a balança Filizola
nem o rádio de pilha prateado
no balcão de cimento cor-de-rosa
recendendo a álcool e vozes de outros pátios

Nem tampouco o mostruário vário
no varejo volúvel e indeciso
de fumo, brincos, drágeas, calendários
entre garrafas e caixotes reunidos

Junto a vassouras piaçava
e dorsos de franguinho a quilo
certo olhar também reclama 
e exala
um quê de esperança
um sorriso



Geralda


Sou uma pessoa comum
Sou do trabalho e da festa
Do esforço e da gentileza
Da força e do mutirão

Sou aquela que tem medo e sofre
Com tanta injustiça no mundo
Sou luta e solidariedade
Roça, lenha, telha, talha e lampião

Sou o grito da terra sofrida
Castigada pela ignorância dos homens
Sou a voz da mulher aflita
Que lava, lavra e tece, e que divide o pão

E para preencher o vazio grande das coisas
Sou aquela que sonha, planta e espalha
Os poemas que vai colhendo neste chão



Favela IV


é meigo o silêncio (breve)
de pedras em oferenda
ao sol da tarde grisalha

somos tantos, somos leves
asas inflando o caos
no sereno da arrulhada

ô de casa! ô de casa!
eu vim para catar piolho
no coco desse menino
eu vim para dançar ciranda
tomar ciência e refino

há festas no poente
de lajes descortinadas
no coração da favela

tão simples se torna a vida
quando o tempo é um sorriso 
peneirado na janela




.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta





O Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta foi criado há doze anos e faz parte do Grupo Eco do Santa Marta, entidade existente no morro há quarenta anos como espaço de reflexão e intervenção no processo de mobilização comunitária na favela de Santa Marta.

O Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta trabalha com textos, depoimentos e canções, que vêm marcados pela história da comunidade, influências de origem e imaginário local.

Nossa arte vem de uma construção coletiva marcada pelo respeito profundo à cultura genuinamente brasileira e à cultura feita pela gente de todas as cores que faz a história que realmente importa em qualquer beco ou viela deste mundo.

Que venham os sonhos, as utopias, as liberdades de toda natureza.

Que venha a arte construída do olhar e dos sentimentos próprios de nossa boa gente.

Queremos falar sobre o morro naquilo que ele tem de sensível e singular.

Queremos explorar o não-dito, as relações entre as gentes do local, os moradores, e os indivíduos que não moram ali.

Mas nada literal ou didático. Não queremos o excesso que aniquila o mistério e a verdade.

Deixamos de lado o que já é visitado em demasia pela sociedade, o que já carrega um inchaço de alusões.

Queremos explorar a liberdade que é a nossa marca de formação e atuação artística.

Queremos continuar sonhando, como fizemos desde a criação do grupo; e construir uma obra-legado que seja referência para jovens no futuro.

Queremos a manutenção de nosso vestuário básico: a sinceridade.

Não queremos a verdade absoluta e valores que não têm nada a ver com nossa realidade e nossa ética.

Queremos mostrar ao mundo que é possível a criação artística de valor e de comprometimento com a sociedade atuante na promoção de convívio saudável e amparo genuíno de homens e mulheres com seus filhos e idosos.

Não estamos nem aí para os academicismos excludentes e a cegueira preconceituosa que paralisa e castra. Somos um grupo que se orgulha dos doze anos de trabalho coletivo para o bem da arte e dos anseios de sua comunidade.

Somos um grupo que supera limitações, tornando continuamente reciclável nosso material de pensamento através do convívio, num somatório de valor e arte que se faz visível.

Aprendemos e elaboramos tudo juntos: o cantar, o dançar, o declamar, o atuar, criando ideias e formas cênicas e musicais próprias para nos expressar e comunicar.

Tentamos traduzir histórias, vivências, estados da alma do povo da Favela de Santa Marta, através de músicas, textos, depoimentos, com a sensibilidade e beleza dos artistas que compõem e engrandecem o grupo cênico-musical Eco do Santa Marta.


Eis um pequeno extrato de um texto de Eça de Queiroz utilizado no próximo espetáculo do grupo Eco:


Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos,
com divinas bondades do coração,
com uma inteligência serena e lúcida,
com dedicações profundas,
cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem,
que sofrem, que se lamentam em vão.

Estes homens são o Povo.


Volto em breve.
V.





sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O Homem que Amava os Cachorros




"O Homem que Amava os Cachorros" (de Leonardo Padura) – Boitempo Editorial.


Incrível romance que se soma a histórias, visões, críticas, avaliações, considerações, análises de um tempo de ruínas de sonhos e crenças.

Um chamado aos homens de bem que se importam com a construção de uma humanidade justa e sem atrocidades.

O homem sempre engolirá o homem?

Barbaridades serão cometidas ad eternum pelo prepotente e tirânico homo sapiens?

Construiremos sempre utopias que escondem labirintos negros e mórbidos, cruéis e violentos, para aprisionarem e corromperem nossas almas?

Aprenderemos algo com a História? E que versão vingará nesse emaranhado disse-me-disse onde o poder faz sua cama de falsas verdades enquanto o povo desenvolve fome, miséria e segregação?

Desconhecimento é cumulativo.















segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta




O Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta está ensaiando novo espetáculo.

Assino a idealização, direção geral, além dos arranjos, alguns textos, músicas e preparo vocal. 

A direção de movimentos será do Marcelo Sandryni (braço direito do Paulo Barros, no carnaval da Unidos da Tijuca até o ano passado e, agora, da Mocidade Independente de Padre Miguel).

É impressionante a força cênica da turma, principalmente na interpretação de minha adaptação da Folia de Reis do Santa Marta.

Não há quem não se arrepie.
Até o vídeo sem graça que botaram no facebook, sem o glamour de apetrechos e indumentárias, é bonito e contagia com a força de seu conteúdo de enorme e singular representatividade.

Parabéns Grupo Eco!




.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Plano Nacional de Educação



Tão importante que compartilho com vocês o texto de Jorge de Souza Santos sobre o PNE (Plano Nacional de Educação):



domingo, 29 de junho de 2014
Plano Nacional de Educação - um gol de letra na Copa

Jorge de Souza Santos

Ganhando ou perdendo a Copa teremos importantes gols para comemorar, mesmo que eles tenham ocorrido em disputas ofuscadas pelos enfrentamentos festivos entre as seleções da FIFA. Passado o caso do projeto Andar de Novo (Exoesqueleto) que só ganhou alguns segundos  de atenção das TVs durante a abertura da Copa, outro gol que mereceria ser comemorado com fogos, festas, danças, fantasias e beijos nas praças públicas, nas praias e nos estádios foi a aprovação pelo Congresso do Plano Nacional de Educação – PNE  e a sua sanção, como Lei 13.005/14, pela presidenta da República no último 25/06/2014 (link para acesso ao final deste texto).

A Lei do PNE é um gol de uma partida que não iniciou ontem. Trata-se de uma Lei cuja história é sustentada pela dedicação de gerações de militantes que lutaram pela valorização da Educação no Brasil desde a Constituinte de 1933, que fizeram de tudo para avançar nos subsequentes períodos democráticos e que bancaram os enfrentamentos durante as ditaduras do Estado Novo e do Golpe de 64. Embates que viabilizaram a articulação das várias entidades que formaram, em 1986, o Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública – FNDEP e que fizeram constar no art. 214 da Constituição a obrigação de existência de uma Lei contendo um plano decenal, com diretrizes, objetivos, metas e estratégias para a Educação no país, o Plano Nacional de Educação.

Resulta dessa luta o fato da nossa Constituição explicitar que o PNE deve ser elaborado de forma a se alcançar:  a erradicação do analfabetismo; a universalização do atendimento escolar; a melhoria da qualidade do ensino; a formação para o trabalho; a promoção humanística, científica e tecnológica do País; o estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto.

A Lei do PNE não é um consenso mesmo entre os que a defendem, mas os seus adversários certamente não estão entre os que buscam aumentar a distribuição da riqueza nacional, e nunca é demais repetir: produzida pelos trabalhadores brasileiros.

As distâncias entre os projetos e as realizações práticas são sempre enormes, especialmente no caso dos projetos políticos. Mas, isso não é surpresa, é um dado da realidade. Não é por  acaso que o primeiro PNE, elaborado para o período 2001 – 2011,  foi tímido e com resultados que deixaram muito a desejar. E também não é por acaso que o projeto de PNE que deveria vigorar nos dez anos seguintes apesar de ter sido encaminhado para a discussão em 2010, só agora, quatro anos após, foi aprovado. Não foi um gol fácil resultado de um craque artilheiro plantado em posição especial esperando para chutar, nem mérito de um driblador miraculoso que venceu sozinho seus marcadores. Foi um gol construído por um conjunto, gol catimbado, com idas e vindas, e com muitos passes até a sua conclusão.

O PNE atual traz consigo uma meta importantíssima que foi barrada no Plano anterior. Ele obriga que até o fim da sua vigência, em 2024, devam ser alocados para a área de Educação os recursos de 10% do PIB nacional, escalonados de forma que 7% já sejam alocados até o quinto ano, 2019.  E outro fato que não pode deixar de ser mencionado é a iniciativa do governo federal de comprometer a priori ganhos oriundos da exploração do petróleo do Pré-sal vinculando-os à formação de recursos para a Educação. Considerando que o PIB nacional hoje é da ordem de 4,2 trilhões de reais,  dez por cento significa uma bufunfa de respeito. São  420 bilhões de reais – o que é muita grana em qualquer lugar do mundo. Alguns jornais informam que poucos países têm este tipo de comprometimento, tanto no volume como na obrigação legal de realizar estes investimentos.

A existência do PNE por si só não resolve os problemas dos trabalhadores nem as carências do setor Educação. É preciso transformá-lo em realizações práticas que, conforme a própria Lei, se desdobram em ações estaduais e municipais o que não será fácil. Cada merreca desses 420 bilhões será disputada e poderá ir parar no salário do professor, na merenda escolar, no computador da escola pública, na construção dos campi universitários, nos projetos de pesquisas, mas também poderá ir parar nos cofres das empreiteiras, nos bolsos dos donos das arapucas privadas de ensino, dos seus representantes e capachos infiltrados na administração pública, nos intermediários, nas campanhas e nos bolsos de governantes e parlamentares comprometidos com grupos de poder  e de interesses  privados que, a propósito, já estão organizados para abocanhar suas boladas. O posicionamento e a mobilização política da nossa sociedade determinará o lado para o qual a balança penderá.

O fato é que o PNE é um instrumento importante e a sua  existência assim como as suas possibilidades de desdobramentos são um avanço político. Pelo menos nessa área existirão elementos consistentes para referenciar os debates, as opiniões, as tomadas de posições, as escolhas e a participação direta, se for o caso, em vez do blá, blá, blá, frouxo, preconceituoso, despolitizado e desinformado que polui o tráfego de mensagens eletrônicas e mediocriza os bate-boca sobre política.

Ainda um outro ponto importante. Foi criada uma base de informações que pode ser acessada por um site denominado Observatório do PNE que pretende concentrar as informações sobre os desdobramentos do assunto. Eu recomendo que, no mínimo, seja acessado um curto vídeo sobre o funcionamento do Observatório (quem se der ao trabalho, observe no vídeo os grupos que construíram o Observatório).

No mais, eu gostaria de concluir com uma mensagem do tipo “agora é só correr pra galera”, mas infelizmente não é assim. Ainda tem muito jogo pela frente.


Assista ao vídeo sobre o Observatório do PNE

Texto integral da Lei 13005/14 - Lei do PNE

Acesse o site Observatório do PNE 

Texto também postado no Blog do jorsan

Rio, 28/06/2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Waly Salomão



Dedico à minha sobrinha Isadora, amante fiel de viagens por esse mundão afora, um poema de Waly Salomão, do livro Algaravias, não sem antes avisá-la de que ele provavelmente só terá sido capaz de emitir aquela poética opinião após muitas viagens.



Antiviagem


Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.

Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?
Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?

Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal de Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.

Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
Meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um para-choque.

Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.

Medito à beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:

EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.




.