quarta-feira, 23 de março de 2016



The Grand Budapest Hotel – um pequeno registro:

Filme anglo-alemão (2014)

Diretor: Wes Anderson

Música: Alexandre Desplat   (A Árvore da Vida, The King's Speach, The Queen, Julie e Julia, The Ghost Writer...)

Com: Ralph Fiennes, Tony Revolori, F.Murray Abraham, Mathieu Amauric, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jude Law, Bill Murray, Edward Norton, Hervey Keitel, Saoirse Ronan, Léa Seidoux, Tilda Swinton e outros.

Com um elenco desses, bom roteiro e boa direção, e com a música de Alexandre Desplat, dificilmente deixaríamos de ter um excelente filme. Muito bom mesmo.

É um filme cult, a meu ver, mas leve, não reflexivo e "cabeça" em demasia, comédia em dose equilibrada.

Um roteiro que traz uma história que beira a extravagância, sem preocupação com plausibilidades ou viabilidades, que nossas limitadas realidades diárias mundanas já nos impõem suficientemente.

Fotografia boa (Robert Yeoman), belas cenas, enquadramentos ótimos. Cores fortes, mas não gritantes, amenas, sem contrastes almodovarianos; cenários originalíssimos.

Algumas cenas, na minha opinião. dispensáveis, um pouco over, algo que tende a provocar dispersão, ainda mais em se tratando de uma história dentro de uma história dentro de outra história.

Mas não deixa de ser um filme bem cuidado; um filme decididamente para quem aprecia arte.
Aliás, a direção de arte fica por conta Stephan Gessler ( de Inglorious Bastards, Ninja Assassin, Anonymous, entre outros).

Algo também digno de nota é que o roteiro foi inspirado em textos de Stefan Zweig (poeta, escritor, dramaturgo austríaco, que, fugido do nazismo, viveu aqui no Brasil e faleceu (suicidou-se) em Petrópolis, na década de 1940 aos 62 anos, embora fosse na época um escritor já famoso e dos mais vendidos no mundo.


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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Registro de Encontro na Favela de Santa Marta






Fiquei encantada com o público de jovens que nos prestigiou ontem, dia 30 de outubro de 2015, na Favela de Santa Marta, na confraternização do pessoal do programa "Cidade, Mudanças Climáticas e Ação Jovem".

Quando chegamos o funk e o passinho rolavam (linda a dança e o contágio coletivo daquela arte 
criada em grupo; que beleza a interação dançante expressiva da grande roda). O som altíssimo forrava o contexto.

No intervalo antes do samba, o grupo cênico-musical Eco do Santa Marta entrou em cena como de costume: acústico, "leve", com Poesia & Música & Dizeres.

Impressionantes foram o silêncio acolhedor naquela laje, a atenção, o interesse manifesto, a reverência, o respeito a nosso trabalho e, é claro, ovação e pedidos de bis finais. Bom demais ter um exemplo dessa grandeza.

Fiquei orgulhosa de pertencer ao Grupo Eco e de ser brasileira! A luz já está aí. Não precisamos 
esperar o fim do túnel. O Brasil tem jovens já educados e preparados para construções dignas, jovens que sabem ouvir, aprender, ensinar e compartilhar. 

Estamos juntos, meus caros.

Abrações.
(a comida estava divina, é bom frisar. Muito chic. Parabéns à organização)





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sábado, 9 de janeiro de 2016

A Rainha Ginga



A Rainha Ginga (José Eduardo Agualusa) – ed. Foz


Um padre brasileiro (Francisco José de Santa Cruz), em crise de fé, narra sua história (mais, muito mais, do que a história da tal Rainha Ginga).

Ele, que nascera em Olinda, no Brasil, no século XVI, foi para o reino do Congo, na África, e, por ser instruído em letras, acaba por servir como secretário da senhora dona Ginga, irmã do rei do Dongo. A partir daí a narração ganha corpo e se desenvolve.

Descreve-nos um mundo cruel, de violências e cobiças. Uma época que passou, mas que ainda vive de alguma forma hoje em nós, herdeiros da história, filhos que dão continuidade muitas vezes aos horrores e brutalidades de nossos antepassados.

Nos sertões da África, nos confins do Brasil ou nos porões e convés de embarcações que atravessavam mares, o demo marcou sua presença e o inferno se manifestou de múltiplas formas onde vicejavam a ganância dos homens e o medo.

Me encantei com as descrições de hábitos, costumes, rituais, filosofia e religiosidade de nossos ancestrais.

Também me encantei com as histórias, suas versões de um passado que se projeta definitivo em nossos tempos atuais. 

Instrutivo e cativante é o vocabulário rico a nos abrir olhos, ouvidos e sensibilidades para outros mundos, mundos que estão em nossas vísceras com a força de familiares instintos e pulsões.

"Há mentiras que resgatam e há verdades que escravizam", mas a plasticidade da sabedoria embutida nos costumes e nas artes dos povos sempre nos aproximará de sua essência, sem subterfúgios. 



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Cada Homem é uma Raça (Mia Couto)




Cada Homem é uma Raça (Mia Couto) – ed. Ndjira


Livro de contos.

Absolutamente fabuloso.

Esse moçambicano, biólogo e escritor, professor e jornalista, é um assombro, uma alegria literária.

Sinto-o como um Guimarães Rosa. Usa e abusa da Língua Portuguesa de forma original e cativante.
Conhecer seus escritos é conhecer sobre seu povo e sua cultura, é viajar num tempo que foi, é e será registro de um para sempre.
É literatura que nos arrebata e enleva. É ao mesmo tempo resistência e voz que traz esperança.

Viva Mia Couto!



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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Lila Maia





MELANCOLIA   (Lila Maia)


Levantar,
preparar o café, 
abrir a página qualquer de um livro de poesia.

Sentar diante da folha em branco,
como se a dor tivesse uma certa magia:
é que desespero tem forma, casa, comida.

Não me asfixio.
Deixo ressoar a água de mais um dia
dentro dessa coragem habitual.



OUTRA LEITURA  (Lila Maia)


Aceitei o silêncio humilhado de certas falas,
a mania de varrer o lixo para debaixo do tapete,
as lágrimas fortes como as do chuveiro.
Às vezes ama-se mal.
E o poema não consegue ter
a elegância, a altivez de uma garça.
É só um rato.



UMA VIGÍLIA  (Lila Maia)


Quarenta anos depois
o silêncio da chaleira que ferve.
Na infância, sempre acendi uma vela na outra.
As surras que levei não se enraizaram.
Cada dia soletrei um tempo do verbo partir.
Vivi com a indiferença e a saudade presas ao calendário.

Quarenta anos depois
não sei me despedir da saudade:
continuo ouvindo o arrastar daquele chinelo
número trinta e três pela casa.



MÚSICA  (Lila Maia)


Faço a letra, quando devagar pisas o tapete
e percebo que estou à beira de um violoncelo.
A vida sai tocando próxima ao meu pescoço
acordes tão íntimos que soletro ais.
Somos iguais em cheiros, excessos.

Faço a letra,
porque a noite, a véspera, o dia seguinte
é saber que a música não se aprende de repente.
É necessário repetir sol quase à exaustão.



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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Alguns de meus textos para o espetáculo 2014 do Grupo Eco do Santa Marta



Depoimento


Meu nome é Lourdes e eu tenho é muita história para contar.

Vim do Nordeste, de uma região tão esquecida desse Brasil, que até a fome se esquecia que a gente precisava de comer.

Era 1958, quando a seca quase matou todo mundo naquele sertão de Pernambuco, num lugar chamado Lagoinha.

A gente ficava zanzando, procurando alguma coisa no meio do nada, tentando escutar o chocalho das cabras...

Era muita a fome.

Para vocês terem uma ideia, um dia eu vi um vazio imenso, assim como o sol indo embora, assim como oco do espírito na curva da solidão.

Não sei se desmaiei ou o quê.

Só vi quando me deram um mingau e eu acordei.

Difícil foi me recuperar da vergonha.

Fome não é coisa de se ostentar. 




Matrix


Sou índio
Sou negro
Sou branco

Sou povo de um grande país

Sou dendê, farinha d'água, rapadura
Valsa, xote, lundu, samba
Maxixe, quadrilha, coco

Requebros em minha raiz

Sou pinga de macaxeira
Canjica no fogão de lenha
Garapa e água de moringa

Compota de ser feliz

Sou muriqui, borboleta
Frango d'água, tuiuiú
Onça-pintada, peixe-boi
Urubu-rei, arara-azul

Vivendo na corda bamba
Vivendo bem por um triz
Escolho minha caçamba
Escolho minha matriz

Renego a absoluta verdade
Que cala e destrói inclemente
Os sonhos que canto junto
Com a gente que é minha gente



Birosca


Não apenas a balança Filizola
nem o rádio de pilha prateado
no balcão de cimento cor-de-rosa
recendendo a álcool e vozes de outros pátios

Nem tampouco o mostruário vário
no varejo volúvel e indeciso
de fumo, brincos, drágeas, calendários
entre garrafas e caixotes reunidos

Junto a vassouras piaçava
e dorsos de franguinho a quilo
certo olhar também reclama 
e exala
um quê de esperança
um sorriso



Geralda


Sou uma pessoa comum
Sou do trabalho e da festa
Do esforço e da gentileza
Da força e do mutirão

Sou aquela que tem medo e sofre
Com tanta injustiça no mundo
Sou luta e solidariedade
Roça, lenha, telha, talha e lampião

Sou o grito da terra sofrida
Castigada pela ignorância dos homens
Sou a voz da mulher aflita
Que lava, lavra e tece, e que divide o pão

E para preencher o vazio grande das coisas
Sou aquela que sonha, planta e espalha
Os poemas que vai colhendo neste chão



Favela IV


é meigo o silêncio (breve)
de pedras em oferenda
ao sol da tarde grisalha

somos tantos, somos leves
asas inflando o caos
no sereno da arrulhada

ô de casa! ô de casa!
eu vim para catar piolho
no coco desse menino
eu vim para dançar ciranda
tomar ciência e refino

há festas no poente
de lajes descortinadas
no coração da favela

tão simples se torna a vida
quando o tempo é um sorriso 
peneirado na janela




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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta





O Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta foi criado há doze anos e faz parte do Grupo Eco do Santa Marta, entidade existente no morro há quarenta anos como espaço de reflexão e intervenção no processo de mobilização comunitária na favela de Santa Marta.

O Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta trabalha com textos, depoimentos e canções, que vêm marcados pela história da comunidade, influências de origem e imaginário local.

Nossa arte vem de uma construção coletiva marcada pelo respeito profundo à cultura genuinamente brasileira e à cultura feita pela gente de todas as cores que faz a história que realmente importa em qualquer beco ou viela deste mundo.

Que venham os sonhos, as utopias, as liberdades de toda natureza.

Que venha a arte construída do olhar e dos sentimentos próprios de nossa boa gente.

Queremos falar sobre o morro naquilo que ele tem de sensível e singular.

Queremos explorar o não-dito, as relações entre as gentes do local, os moradores, e os indivíduos que não moram ali.

Mas nada literal ou didático. Não queremos o excesso que aniquila o mistério e a verdade.

Deixamos de lado o que já é visitado em demasia pela sociedade, o que já carrega um inchaço de alusões.

Queremos explorar a liberdade que é a nossa marca de formação e atuação artística.

Queremos continuar sonhando, como fizemos desde a criação do grupo; e construir uma obra-legado que seja referência para jovens no futuro.

Queremos a manutenção de nosso vestuário básico: a sinceridade.

Não queremos a verdade absoluta e valores que não têm nada a ver com nossa realidade e nossa ética.

Queremos mostrar ao mundo que é possível a criação artística de valor e de comprometimento com a sociedade atuante na promoção de convívio saudável e amparo genuíno de homens e mulheres com seus filhos e idosos.

Não estamos nem aí para os academicismos excludentes e a cegueira preconceituosa que paralisa e castra. Somos um grupo que se orgulha dos doze anos de trabalho coletivo para o bem da arte e dos anseios de sua comunidade.

Somos um grupo que supera limitações, tornando continuamente reciclável nosso material de pensamento através do convívio, num somatório de valor e arte que se faz visível.

Aprendemos e elaboramos tudo juntos: o cantar, o dançar, o declamar, o atuar, criando ideias e formas cênicas e musicais próprias para nos expressar e comunicar.

Tentamos traduzir histórias, vivências, estados da alma do povo da Favela de Santa Marta, através de músicas, textos, depoimentos, com a sensibilidade e beleza dos artistas que compõem e engrandecem o grupo cênico-musical Eco do Santa Marta.


Eis um pequeno extrato de um texto de Eça de Queiroz utilizado no próximo espetáculo do grupo Eco:


Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos,
com divinas bondades do coração,
com uma inteligência serena e lúcida,
com dedicações profundas,
cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem,
que sofrem, que se lamentam em vão.

Estes homens são o Povo.


Volto em breve.
V.