quarta-feira, 25 de setembro de 2013



Em março deste ano perdi meu então mais frequente, precioso e querido interlocutor em questões primordialmente filosófico-poéticas, mas também musicais – além de abobrinhas salutares, algumas nem tanto, mas que, no conjunto, configuravam tudo aquilo que era uma espécie de procura, investigação. Trocas de figurinhas que faziam valer em dobro meus minutos diários.

A morte de Raul Macedo, amigo e familiar, poeta de valor incalculável para mim, jovem pensador que surpreendia por sua incrível e quase inexplicável maturidade intelectual e espiritual, me tirou o tapete, me desnorteou, paralisou, esvaziou...

Depois de muitos meses rarefeita e dispersa por estas bandas, experimentando outras novas, gigantes e sutis emoções nesse intricado motor fazedor de estranhamentos e convulsões de entranhas que é a vida, estou de volta, não sei se pro meu aconchego, mas para a vadiagem regular tecida na forma de minha preferência: a caótica.


Que eu seja bem-vinda!






An eye for an eye only leads to more blindness.
(Margaret Atwood) 







Zelosa       (Margaret Atwood) 

Como foi que me tornei tão zelosa? Fui sempre assim?
Saindo por aí quando criança com uma vassourinha e uma pá,
varrendo a sujeira que eu não tinha feito,
ou lá fora no jardim com um ancinho mirrado,
tirando o mato do jardim dos outros
– a sujeira era soprada de volta, o mato crescia, apesar dos meus esforços –
e com uma carranca de desaprovação o tempo todo
ante a irresponsabilidade dos outros, e a minha própria escravidão.
Eu não executava essas tarefas de bom grado.
Queria estar no rio, ou dançando,
mas algo me segurava pela nuca.
Essa também sou eu, anos mais tarde, um caco, de olhos roxos,
porque o que tinha de ser terminado não fora, e fiquei acordada até tarde,
rabugenta como uma cobra, tomando café demais,
e ainda mais adiante, aqueles grupos compostos de murmúrios
E repreensões, e a exortação padrão:
Alguém devia fazer alguma coisa!
Era a minha mão se levantando rapidamente.

Mas eu me demiti. Descartei o aperto do meu eco.
Decidi usar óculos escuros, e um colar
adornado com a palavra dourada NÃO,
e comer flores que não cultivei.

Por que me sinto, contudo, tão responsável
pelo choro que vem das casas em ruínas,
por defeitos de nascença e guerras injustas,
e a tristeza macia e insuportável
que ecoa das estrelas distantes?




segunda-feira, 12 de agosto de 2013


Dois poemas de Giuseppe Ghiaroni (1919-1998), poeta e jornalista mineiro que viveu no Rio de Janeiro, escreveu novelas para a Rádio Nacional e teve seus poemas lidos com sucesso naquela emissora:



Economia

Dá de ti. Dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coração.
Dá de ti para os homens e as mulheres
como as árvores dão e as fontes dão.
Não somente os sapatos que não queres
e a capa que não usas no verão.
Darás tudo o que fores e tiveres:
o talento, a energia, o coração.
Darás sem refletir, sem ser notado,
de modo que ninguém diga obrigado
nem te deva dinheiro ou gratidão.
E com que espanto notarás, um dia,
que viveste fazendo economia
de talento, energia e coração!
...





A Máquina de Escrever

Mãe, se eu morrer de um repentino mal, 
vende meus bens a bem de meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval. 

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Podes vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! Ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quantas vezes esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer,
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Poemas de Adonis

Selecionei algumas pequenas maravilhas do poeta Adonis. 
Se é o maior poeta árabe vivo, não sei. O que sei é que ele é imprescindível.
Tradução de Michel Sleiman.



Espelho do século XX

Caixão revestido com rosto de menino
livro escrito nas entranhas de um corvo
fera que avança levando uma flor
rocha que respira nos pulmões de um louco
assim é
o século XX



Espelho das nuvens

Asas
são, mas de cera
e a chuva a torrente não
é chuva – são barcos levando lágrimas.



Espelho do tempo e do olho

Cantei, disse aos dias:
do sangue ergui cidades
que geram ritmos
disse aos dias: estendi-o
como um ramo saudoso
que na seiva me leva ilumina a morte, a mortalha
cantei disse aos dias: 
este é o meu sangue
         (certa essência talvez de
         certa ciência
         se a declarasse diriam:
         adora ídolos)
cantei desjuntei – dos cílios que o teciam –
o sonho e juntei ao tempo
o olho.




Árvore do Oriente

Me fiz espelho
refleti tudo
mudei em teu fogo a cerimônia da água e da vegetação
mudei voz e apelo,

passei a te ver em dois
tu e esta  pérola que nada em meus olhos
eu e a água nos fizemos amantes
nasço em nome da água
nasce em mim a água
eu
e a água
nos replicamos.



O signo

Fundi fogo e neve
o fogo não me compreenderá o bosque e a neve
permanecerei obscuro e calmo
a habitar flores e pedras
a esconder-me
a perscrutar
a ver
a ondular
como a luz entre a magia e o signo.

terça-feira, 12 de março de 2013




Sobre o filme Argo. Argh!!
                                 (Jorge de Souza Santos)


Durante o governo do presidente Carter, dos EUA, no episódio da invasão da 
embaixada americana no Irã, nos anos 1979/1980, logo após a deposição do Xá Rezha 
Pahlevi na revolução que levou o Aiatolá Khomeini ao poder, seis americanos 
refugiaram-se na embaixada canadense, sem o conhecimento dos iranianos que 
mantiveram cerca de 60 reféns na embaixada americana invadida.
A Central de Inteligência Americana – CIA elaborou e realizou um plano de resgate dos 
seis americanos simulando uma produção canadense de um filme de ficção científica 
que seria chamado Argo e rodado no Irã, um campo de pouso de naves extraterrestres 
do filme.
Para tal, a CIA montou uma produtora, elaborou roteiro, script etc. Simulou uma visita
de locação das cenas para filmagens, obteve autorização dos iranianos e um dos seus 
agentes fazendo-se de membro da equipe de produção, foi ao Irã levando falsos 
documentos para viabilizar a fuga dos abrigados na embaixada canadense como se 
estes fossem os demais membros da equipe de filmagem.
A fuga foi um sucesso. Os canadenses assumiram a responsabilidade pelo ato e 
omitiram o papel da CIA para não prejudicar a vida dos reféns mantidos na embaixada 
americana e que permaneceram lá por mais de um ano. Anos mais tarde, a história 
real veio a público revelando o papel da CIA, dos resgatados etc. 
Este é o roteiro do filme – Argo - ganhador do prêmio Oscar 2013. Um grupo 
aprisionado em algum lugar hostil aos EUA, em circunstâncias que tornam quase 
impossível a sua libertação, é resgatado por um mocinho ou uma equipe de heróis a 
partir de uma ação corajosa e um plano ousado de fuga. Quantas vezes já se produziu
um filme assim? Para mim é um filmeco, com um roteiro batido e rebatido. Não 
comento os demais aspectos que caracterizam as obras de cinema porque estes eu 
não saberia julgar. Não entendo da arte, nem valorizo. Os filmes me ganham pelo 
roteiro e, declaro, não sou muito exigente. Gosto de filmes de aventuras, sem 
pretensões, e Argo é filminho tipo Rambo, sem a tradicional violência explícita do 
personagem baixinho e machão de uma série que já deve estar no Rambo XXXVII.
Mas, essa preliminar é apenas para abordar ou manifestar o meu assombro com o que 
chamo de “cinema americano” sem maior rigor na definição. Refiro-me ao produto 
divulgado internacionalmente, produzido em estúdios possivelmente hollywoodianos 
e que mantém a indústria multimilionária do cinema.
O meu espanto e, até, admiração é a capacidade do cinema americano produzir 
aventuras, proezas e heróis também americanos, a partir de situações onde a participação Estados Unidos foi em realidade a mais escabrosa e indecente. É muita 
cara de pau!
Não estou falando de um falseamento da realidade ou mistificação de fatos. Não 
tenho a expectativa que uma obra comercial americana se transforme em um 
instrumento de resgate histórico ou um documentário que contradiga ou conteste as 
referências políticas daquela sociedade, embora isso possa ocorrer em circunstâncias 
especiais. Também não me surpreendo com a existência de filmes que enalteçam a 
CIA, outros aparelhos ou instituições que caracterizem a sociedade americana. Refiro-me a um processo ou mecanismo que se transformou em uma habilidade, quase uma 
excelência. A capacitação do cinema americano em apresentar roteiros com um 
descaramento e desconsideração crítica que parece ultrapassar a ideologia e que nem 
mesmo se preocupa em ocultar os fatos. 
O próprio filme relata, embora este não seja o foco, o papel dos EUA nos 
acontecimento do Irã, no golpe que levou o Xá ao poder, e na sustentação e apoio à 
sua ditadura torturadora e corrupta. O filme não omite o empenho americano em 
salvar a pele do Xá quando este foi derrubado. Fala sobre a fortuna em ouro levada 
pelo Xá quando este fugiu do Irã. O filme fala sobre a população com história de 
familiares perseguidos, torturados e mortos pelo aparelho de estado iraniano apoiado 
pelos americanos. Fala sobre o motivo da revolta, invasão da embaixada e sobre 
captura de reféns americanos com o propósito de forçar os EUA a extraditarem o Xá 
para ser julgado. Enfim, tudo isto está lá, no filme. 
Porém, ainda assim, sinto-me parvo, imbecil, ao ver que os caras tem o descaramento 
de contar a história sob uma ótica e com símbolos que invertem completamente os 
papéis. Barbas opulentas, vozes exaltadas, grosseria no trato com as pessoas, sugerem 
um povo iraniano de insanos e radicais fanáticos contrastados com americanos dóceis, 
gentis e, por uma empatia induzida pelo filme, inocentes. 
Os agentes da CIA, por sua vez, são personagens comprometidos em salvar o modo
americano de vida ao mesmo tempo em que “humanamente” tratam os seus 
problemas pessoais e familiares. O filme tem até a tradicional cena de euforia do 
pessoal que participa nos bastidores da missão, dando suporte e na monitoração dos 
acontecimentos. Mostra uma retaguarda tensa e ansiosa com o desfecho que, quando 
ocorre, provoca lágrimas, abraços efusivos, cumprimentos e aqueles olhares cúmplices 
e comprometidos entre os que estão em pontos distantes dentro do mesmo ambiente. 
Caralho! Acho que literalmente todo o mundo já assistiu filmes com estas cenas.
O que chama a minha atenção, que me apalerma, não é o fato de serem peças 
medíocres ou de valorização de uma ação política com da qual discordo. Fico perplexo 
com o cinismo desavergonhado e com o investimento num descaramento cujos 
resultados positivos para os objetivos propostos não se pode negar.Felizmente não precisei aturar o cheiro insuportável de pipoca nem a visão daquelas 
pessoas com caras retardada deslocando-se na sala de cinema e tropeçando ao olhar 
para cima tentando identificar os acompanhantes, carregando os enormes baldes de 
pipoca e copos de coca – cola cujos restos e respingos garantirão a frequência e 
aumento da quantidade das baratas que habitam as salas de projeções (as notícias 
informam que a sobrevivência dos bichinhos já está assegurada pela natureza até 
mesmo no caso de explosões nucleares). 
Assisti ao filme no ambiente higiênico e confortável da minha casa, numa sessão de 
TeleCine, e confesso sem constrangimentos: em vários momentos me vi torcendo 
pelos mocinhos da CIA, contra os bandidos da gangue do Aiatolá. Mas, não sinto culpa. 
Isto já aconteceu em filmes sobre o resgate de reféns na A. Latina, no Vietnã e até mais 
recentes, no Iraque e Afeganistão. No filme não tem problema. Desejo que eles se 
fodam na realidade.
Rio, 05/03/2013

terça-feira, 15 de janeiro de 2013



Aproveitando ainda os eflúvios do réveillon, quando sempre testemunhamos desejos, promessas, decisões, agradecimentos e pedidos ao sobrecarregado deus pai para o ano que se inaugura, faço o registro sonoro de duas maravilhas:

Led Zeppelin, em homenagem no prestigiado Kennedy Center, nos EUA (imagino que até o Tinhorão se curvaria com reverência ao se deparar com isto).

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=mf2O3OAQjng


E Paulinho da Viola, dos meus intérpretes favoritíssimos, cantando Novos Rumos (de Rochinha e Orlando Porto).

http://youtu.be/--ZtFVriASc


No mais, alguns versos visitando esse conceito que tanto nos oprime – a felicidade – como possível mote para uma próxima nota.
Por falar nisso. um feliz 2013 para todos!



Felicidade  (Vera Lúcia de Oliveira)

como se essencial fosse sentar

um homem toma conta do quintal
fazendo cesta
cruzando fios

um gato preto lambe a solidão

o homem vê a solidão sendo lambida
e trança a felicidade
nos dedos ágeis



Biscuit  (Paulo Henriques Britto)

Felicidade frágil,

que se equilibra mal
e mal (ainda que ágil)
no contrafactual

e no mais-que-imperfeito

do que ganha sentido
quando não tem mais jeito
e o prazo está vencido.

Então todo obstáculo

vira finalidade:
é o fim do espetáculo,
frágil felicidade.



Homem Feliz  (Abel Silva)

                               Dizem que no Brasil

                                          há um homem feliz...
                                                       (Maiakovski)

Nesta tarde, no Brasil

um homem se sente feliz!
não eufórico nem agitado
(na verdade nada de extraordinário aconteceu)
e ele examina o céu
de azul pintado. E este homem sou eu.
Na minha varanda, sob o Corcovado
há um pé de manacá, de pitanga e unha-de-gato
e até uma borboleta vira-folhas
comparece com sua soluçante e bem-vinda colaboração.
Não sei bem por que me sinto assim como aquele homem
brasileiro de Maiakovski
e é tão raro em letra de forma alguém se confessasr feliz
que eu deveria talvez fazer um exame de consciência...
Mas é que a vida está agora, digamos,
VIVA! Só. Sem alarde. Sem maiores transcendências.
Vivo eu, a borboleta, as plantas e a tarde...
Ocorre às vezes este viver pousado
na haste do tempo: ser,
feito um cão desprevenido ou um tigre saciado
só o faro, talvez, inda ligado
ao ritmo geral das coisas: a vida distraída.
Sei que isto é uma fresta
nas surpresas do vento
e enquanto olho o céu sozinho e lento
milhares se acotovelam nos porões
e afogados recebem
                              sob a neblina
a última notícia da luz.
Mas não quero pensar neles, não quero pensar,
só me sentir assim como me sinto: passando...
E a brisa
o tempo e a vida
me levando.



Felicidade (Antonio Cicero)


Felicidade é esse acaso

   Que te fez o que és.
    Nada queres dizer.
Nada deves a trabalho
           Ou a dever.
             Perverso
              Brincas.
Criatura de um só dia
           Absoluto
            És festa
          Serás luto.
És festa sonho carne frêmito.
    Não mereces este prazer
   Nem eu mereço teu amor:
    Tudo entre nós é gratuito
                   E muito
                   E parte.
    Cardumes de sol ao mar
            Quase sem arte
            Quero-te feliz.



O que é a felicidade?
          lápide de tumba
          num cemitério na margem da língua.
                                        (Adonis)













terça-feira, 20 de novembro de 2012

Cora Coralina, Itamar Silva e Grupo Eco do Santa Marta



Todos à minha volta sabem do meu grande envolvimento com o Grupo Eco do Santa Marta e da enorme admiração que tenho por Itamar Silva, fundador e presidente do grupo, um homem de garra e fibra, de integridade, inteligência e humanismo incontestáveis.

O Diablog tem a satisfação de acolher e registrar duas gotas preciosas vinculadas ao trabalho e à história do Grupo Eco e da Favela de Santa Marta: a primeira é Todas as Vidas, poema de Cora Coralina que nos encanta particularmente na interpretação magnífica da Geralda, integrante do grupo cênico-musical Eco do Santa Marta, que dirijo há dez anos; a outra é um simples relato de um acontecimento corriqueiro num dia comum da vida naquela favela – um instantâneo absolutamente distante da rotina de muitos moradores "do asfalto" daquele bairro incrustado no coração da zona sul do Rio de Janeiro.




TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
na minha vida –
a vida mera das obscuras.

(Cora Coralina)





          Deu macaco na manhã de domingo de Santa Marta  


O domingo no Santa Marta seguia sua rotina. Moradores acordando um pouco mais tarde; uns porque é domingo e aproveitam para tentar descansar o corpo da semana pesada de trabalho. Outros dormem um pouco mais, por só terem conseguido pegar no sono às 6 horas da manhã, quando acabaram os bailes e os eventos da comunidade que bomba. E outros ainda estão “zumbizando” pelos caminhos. A madrugada foi tão boa que a vontade é de não dormir e prolongar o prazer da festa.
A rotina é quebrada por um estrondo que ecoa por quase todo o Morro. Imediatamente o som alto de um animado forró que já saía de uma das casas emudece. Quem estava na padaria para comprar o pão apressou-se em fazer o seu pedido, pois sabia que a próxima fornada poderia demorar. O estrondo veio do estouro de um transformador da Light e deixou metade do Morro sem energia elétrica.
Logo a notícia se espalhou pelos caminhos mais ou menos silenciosos da favela: “Foi o macaco! Ele está todo queimado!” “Ele morreu?” “Ainda não! Tá estrebuchando, com metade do corpo todo queimado!”
Duas horas depois a Light estava no local consertando o transformador desarmado pelo macaco. Em seguida, o Morro volta à sua rotina. O vizinho coloca outra vez o mesmo cd de forró. Um pouco mais distante, um saudosista dispara músicas da década de 1970. E vários outros sons misturados e indecifráveis tomam conta desta quase hora do almoço. O dia está chuvoso e faz frio no Santa Marta. A padaria ligou o forno elétrico e prepara mais uma das várias fornadas do dia. No entanto, uma pergunta que não quer calar! E o macaco? Morreu?
Seu corpo está encolhido numa parte do caminho, próximo ao poste que sustenta o transformador danificado.
Um garotinho se aproxima, puxando o irmão menor pela mão: “Vem, vem ver o macaco!” E logo outros curiosos se aproximam. Um misto de interesse, pena e medo reflete o sentimento daquela pequena multidão que quer comprovar a existência de um culpado pelas horas sem energia.
Uma dúvida toma conta da favela: de quem é a responsabilidade pela retirada do corpo do macaco daquele local? Alguém sugere ligar para o 199, 193 (?), mas a contra-argumentação é imediatamente ouvida – eles demoram e só atendem se for gente!
“Chama o bombeiro!”, sugere outro, rindo: “Ih, bombeiro só retira gatinho de telhado que ameaça viúva indefesa.”
“O mais correto é chamar a sociedade protetora dos animais”, fala uma senhora com muita autoridade. Mas a afirmação é quebrada por um adolescente: “A sociedade só protege animais vivos.”
E agora, quem poderá nos ajudar? Eu, Chapolin Colorado!
E a alegria volta a reinar. Cada um vai para seu canto e o dia segue com seus barulhos habituais na favela de Santa Marta.
Obs.: Apesar da grande movimentação em torno do ocorrido, muitos moradores continuaram dormindo e, certamente, até duvidarão desta história! Em sua opinião, de quem é a responsabilidade pelo corpo do macaco?

(Respostas para o facebook do Grupo Eco. Os comentários serão publicados na próxima edição do Jornal.)


(Itamar Silva)







quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Madredeus, W. Szymborska e Raul Macedo


Coisa linda para se ver, ouvir e ler a toda hora e não só em vésperas de datas especiais!
Carícias.

Delicio-me sempre com Madredeus.
Vale a pena curtir o link:
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hCUOQYruotI





A mulher de Lot            (Wislawa Szymborska)

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.





In Memoriam       (Raul Macedo)


Sugiro que Wislawa

tenha fumado no hospital

e dito – daria tudo

por um  café, e alguém

com uma almofada apoiaria

sua cabeça,  e ela

 pensaria  em dizer

que não perdeu ainda a cabeça,

mas não  diria, não era

preciso, e ela ,sorrindo,

 sabia  desde  o começo,

o algodão do estofo da cama

o soro, os aparelhos,

 ao rés da música abrindo

lá fora alguns pássaros

na alva da janela,

olharia a relva sem olhar

para trás, para os civis

(apenas pra moça de xale

que alimentava as pombas)

sentava num banco, elegante,

esperava, esperava

e tomava seu café

como quem abraça um amigo.




.