Acabo de ser brindada com um bem cuidado exemplar de um livro editado pela Companhia das Letras, com uma seleção de poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, renomada poeta portuguesa, falecida em 2004.
Eis alguns de seus belos poemas:
Eu Me Perdi
Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote
Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra
Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar
Esta Gente
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Bach Segóvia Guitarra
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
A Noite e a Casa
A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo
A noite reúne a casa a seu destino
Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento
O vazio caminha em seus espaços vivos
Por Delicadeza
Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só tres passos dei
Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado
Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei
Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado
Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei
Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:
"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida"
Poema
Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga
Perfeito é não quebrar
A imaginária linha
Exata é a recusa
E puro é o nojo.
Arte, poesia, cinema, literatura, música, cultura popular: reflexões, considerações, aforismos, poemas...
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Tempo para Abbas Kiarostami
Constato que uma síndrome nos acomete com frequência: a do tempo desperdiçado, com a consequente busca pela compensação ou reparo.
Uns lamentam o tempo perdido fora do carregar de pedras na estrada única que leva ao sucesso.
Outros lamentam o tempo detido em bares e botequins ou em conversas que só podem levar ao breu ou, no máximo, a lugar nenhum.
Outros ainda, mais sofisticados na neura comum, condenam até o tempo dedicado a estudos, leituras, viagens, afazeres fora de propósito específico, valor ou meta bem determinada.
Há os que vão mais longe e chegam ao cúmulo de execrar o tempo despendido uma vida inteira... no trabalho!!!
Sem desmerecer outras possibilidades para nos posicionarmos diante das questões que envolvem a noção de tempo em nossas vidas, arrisco uma boa sugestão e mantenho a pincelada na questão só para emoldurar as pérolas de hoje.
Sugiro que nada há de melhor do que uma boa sessão de filmes de Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano, a nos instigar à atemporalidade, às viagens de todo tipo, ao movimento, ao atravessar de barreiras, ao enfrentamento tanto dos acasos quanto das obviedades, à comunicação frenética de nosso tempo em contextos variados, à verificação da singeleza e do delicado em roupagens de permanente mutação, tudo isso como pano de fundo para o nosso constante buscar de aconchego físico, mental e espiritual. Sem contar com a injeção de autoestima a que somos presenteados, pela oferta generosa de um cardápio intelectual digno e respeitoso servido de bandeja!
Quatro filmes de Abbas Kiarostami, importantes não só para os cinéfilos de plantão, mas para aqueles que buscam se antenar com as linguagens de fronteira de nossa precária civilização:
1) Gosto de cereja (1997)
2) O vento nos levará (1999)
3) Dez (2002)
4) Cópia fiel (2010).
Um deleite de incomensurável conteúdo residual para reflexões e considerações ad eternum.
E por falar em deleite, compartilho com os nobres leitores deste Diablog nº14 alguns versos magníficos do meu querido amigo e parceiro, um dos mais geniais poetas que conheço: Cacau Leal.
Chave do Tempo (Cacau Leal)
pousamos na beira do rio sem nome
os seixos, um mistério de milênios,
dormem indatados
polidos antes pelas nossas lágrimas
os seixos rolam agora
sob o impulso dos dedos
onde reside a chave do tempo
de noite
na escuridão
sozinhos e sem luar
como podem –
alguém há de perguntar –
estes ovos inanimados
brilhar?
e eu,
subtraído de tua claridade,
guardo silêncio
eu, não sei se eu os seixos que apago
Cena XXIX (do livro Cabo Frio: o vento fala, de Cacau Leal)
...aqui sim começava uma nova etapa aventura sol e lua e música dos
ventos e os brancos imensos e os azuis do céu do mar e os lençóis d'areia
dunas luz caju urucum pimenta vermelha sal grosso afagos afetos
camarão siri ciclones de estrelas anzol espinhos coco abacaxi lagartos
restinga maracujá moinhos conchas olhos cabeça coração temporais
e peixes e barcos e cal e calcário musgos verdes coqueirais algas puçá
pássaros sol água ferrosa arrastão praia manhãs crepúsculo noite
amanhã hoje vozes pão café papagaio varanda pode não pode aceito
vou cheguei estou sei sonhei virá virão porta soleira maré açúcar sal
farinha areia portão lampião mosquitos mormaço chuvas telhas sono
flores mel cirros lágrimas varal qual mal bem bom não vai vem...
Lição de um gato siamês (Ferreira Gullar)
Só agora sei
que existe eternidade
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
Canção do dia de sempre (Mario Quintana)
Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida,
inexperiência...esperança...
E a rosa louca dos ventos
presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
das outras vezes perdidas,
atiro a rosa do sonho
nas tuas mãos distraídas...
Uns lamentam o tempo perdido fora do carregar de pedras na estrada única que leva ao sucesso.
Outros lamentam o tempo detido em bares e botequins ou em conversas que só podem levar ao breu ou, no máximo, a lugar nenhum.
Outros ainda, mais sofisticados na neura comum, condenam até o tempo dedicado a estudos, leituras, viagens, afazeres fora de propósito específico, valor ou meta bem determinada.
Há os que vão mais longe e chegam ao cúmulo de execrar o tempo despendido uma vida inteira... no trabalho!!!
Sem desmerecer outras possibilidades para nos posicionarmos diante das questões que envolvem a noção de tempo em nossas vidas, arrisco uma boa sugestão e mantenho a pincelada na questão só para emoldurar as pérolas de hoje.
Sugiro que nada há de melhor do que uma boa sessão de filmes de Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano, a nos instigar à atemporalidade, às viagens de todo tipo, ao movimento, ao atravessar de barreiras, ao enfrentamento tanto dos acasos quanto das obviedades, à comunicação frenética de nosso tempo em contextos variados, à verificação da singeleza e do delicado em roupagens de permanente mutação, tudo isso como pano de fundo para o nosso constante buscar de aconchego físico, mental e espiritual. Sem contar com a injeção de autoestima a que somos presenteados, pela oferta generosa de um cardápio intelectual digno e respeitoso servido de bandeja!
Quatro filmes de Abbas Kiarostami, importantes não só para os cinéfilos de plantão, mas para aqueles que buscam se antenar com as linguagens de fronteira de nossa precária civilização:
1) Gosto de cereja (1997)
2) O vento nos levará (1999)
3) Dez (2002)
4) Cópia fiel (2010).
Um deleite de incomensurável conteúdo residual para reflexões e considerações ad eternum.
E por falar em deleite, compartilho com os nobres leitores deste Diablog nº14 alguns versos magníficos do meu querido amigo e parceiro, um dos mais geniais poetas que conheço: Cacau Leal.
Chave do Tempo (Cacau Leal)
pousamos na beira do rio sem nome
os seixos, um mistério de milênios,
dormem indatados
polidos antes pelas nossas lágrimas
os seixos rolam agora
sob o impulso dos dedos
onde reside a chave do tempo
de noite
na escuridão
sozinhos e sem luar
como podem –
alguém há de perguntar –
estes ovos inanimados
brilhar?
e eu,
subtraído de tua claridade,
guardo silêncio
eu, não sei se eu os seixos que apago
Cena XXIX (do livro Cabo Frio: o vento fala, de Cacau Leal)
...aqui sim começava uma nova etapa aventura sol e lua e música dos
ventos e os brancos imensos e os azuis do céu do mar e os lençóis d'areia
dunas luz caju urucum pimenta vermelha sal grosso afagos afetos
camarão siri ciclones de estrelas anzol espinhos coco abacaxi lagartos
restinga maracujá moinhos conchas olhos cabeça coração temporais
e peixes e barcos e cal e calcário musgos verdes coqueirais algas puçá
pássaros sol água ferrosa arrastão praia manhãs crepúsculo noite
amanhã hoje vozes pão café papagaio varanda pode não pode aceito
vou cheguei estou sei sonhei virá virão porta soleira maré açúcar sal
farinha areia portão lampião mosquitos mormaço chuvas telhas sono
flores mel cirros lágrimas varal qual mal bem bom não vai vem...
Lição de um gato siamês (Ferreira Gullar)
Só agora sei
que existe eternidade
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
Canção do dia de sempre (Mario Quintana)
Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida,
inexperiência...esperança...
E a rosa louca dos ventos
presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
das outras vezes perdidas,
atiro a rosa do sonho
nas tuas mãos distraídas...
domingo, 17 de abril de 2011
Ciorânicos I, II, III, IV
Lavra pessimista (I)
Não se fazem poemas em meio a desatinos
Não posso escrever poemas neste mundo louco
Impossível o nascer de poemas sob bombardeios
De notícias desvairadas sobre tudo e todos
O poema se esconde debaixo do travesseiro
Onde sonhos ainda escapam às verdades
O poema se esquiva qual sombra na madrugada
A vasculhar em vielas e becos insondáveis
E enfrenta frio, dores, chuvas de granizo
Penetrando névoas, nuvens e neblinas
E encontra a si mesmo assim meio perdido
Tropeçando vez por outra em suas rimas
O poema é vento e seu açoite
O poema é brado em plena noite
O poema é louco e teimoso
Seu sorriso de escárnio meio muxoxo
É tudo o que posso no momento alcançar
Mas o poema é hábil e sutil, regente
Nas artes mágicas do rompante
Revelando-se iluminado e quente
Surpreendentemente me alcança
Reinventando salões de primavera
Como última novidade urgente
Da lavra pessimista do poeta
(V.V.)
Ciorânico (II)
Hipótese mal formulada
Tese sem comprovação
Tendência ao negativismo
Noticiários de televisão
Delta menor que zero
Casos sem solução
Nenhuma nesga de luz
Teorias sem unificação
Propensão à vadiagem
Erro crasso na dosagem
Desvio certo da bagagem
Déficit de aprendizagem
Estrago pela ferrugem
Compulsória hospedagem
Drama inócuo em longa metragem
Desgraça pouca é bobagem
(V.V.)
Recurso à mão (III)
Desta janela de um oitavo andar
Reconheço pedras, poucos verdes, chão
Asfalto gasto, gastas novidades
Pássaros que ainda resistem com disposição
O vendedor de balas, doces, mariolas, pirulitos
Que me amedrontava infância e delírios
Com sua verruga exposta sem recato
E seu topete mal ajambrado de glutão
Tudo faz recheio audível e ameniza a tarde
Mas talvez esse tudo não passe de impressão
Pois a vida se processa em mil lampejos
Com seus achos, sintos, pensos, imaginos
Sujeita a estúpidas e várias
Displicentes, incoerentes
Inocentes desmedidas
Além de múltiplos recursos de interpretação
Desta janela de um oitavo andar
Minha imobilidade festeja o salto único
Em que construo em vão meus desatinos
E despejo meus vazios nos vazios do mundo
(V.V.)
Pequenez (IV)
Contenta-te com problemas fáceis
Felicita-te por desafios medíocres
Envolve-te em relações vazias
Atrofia tua mente
Despreza o próximo
Finge o exercício de tua cidadania
Trapaceia no domínio do lar
Deseduca teus filhos para o amor
Ou não os tenhas, que é bem mais barato
Serás alguém, com certeza
Outros preferem rezar
(V.V.)
AFORISMOS IMPLICANTES (uma pequena amostra da edição IV)
Não se fazem poemas em meio a desatinos
Não posso escrever poemas neste mundo louco
Impossível o nascer de poemas sob bombardeios
De notícias desvairadas sobre tudo e todos
O poema se esconde debaixo do travesseiro
Onde sonhos ainda escapam às verdades
O poema se esquiva qual sombra na madrugada
A vasculhar em vielas e becos insondáveis
E enfrenta frio, dores, chuvas de granizo
Penetrando névoas, nuvens e neblinas
E encontra a si mesmo assim meio perdido
Tropeçando vez por outra em suas rimas
O poema é vento e seu açoite
O poema é brado em plena noite
O poema é louco e teimoso
Seu sorriso de escárnio meio muxoxo
É tudo o que posso no momento alcançar
Mas o poema é hábil e sutil, regente
Nas artes mágicas do rompante
Revelando-se iluminado e quente
Surpreendentemente me alcança
Reinventando salões de primavera
Como última novidade urgente
Da lavra pessimista do poeta
(V.V.)
Ciorânico (II)
Hipótese mal formulada
Tese sem comprovação
Tendência ao negativismo
Noticiários de televisão
Delta menor que zero
Casos sem solução
Nenhuma nesga de luz
Teorias sem unificação
Propensão à vadiagem
Erro crasso na dosagem
Desvio certo da bagagem
Déficit de aprendizagem
Estrago pela ferrugem
Compulsória hospedagem
Drama inócuo em longa metragem
Desgraça pouca é bobagem
(V.V.)
Recurso à mão (III)
Desta janela de um oitavo andar
Reconheço pedras, poucos verdes, chão
Asfalto gasto, gastas novidades
Pássaros que ainda resistem com disposição
O vendedor de balas, doces, mariolas, pirulitos
Que me amedrontava infância e delírios
Com sua verruga exposta sem recato
E seu topete mal ajambrado de glutão
Tudo faz recheio audível e ameniza a tarde
Mas talvez esse tudo não passe de impressão
Pois a vida se processa em mil lampejos
Com seus achos, sintos, pensos, imaginos
Sujeita a estúpidas e várias
Displicentes, incoerentes
Inocentes desmedidas
Além de múltiplos recursos de interpretação
Desta janela de um oitavo andar
Minha imobilidade festeja o salto único
Em que construo em vão meus desatinos
E despejo meus vazios nos vazios do mundo
(V.V.)
Pequenez (IV)
Contenta-te com problemas fáceis
Felicita-te por desafios medíocres
Envolve-te em relações vazias
Atrofia tua mente
Despreza o próximo
Finge o exercício de tua cidadania
Trapaceia no domínio do lar
Deseduca teus filhos para o amor
Ou não os tenhas, que é bem mais barato
Serás alguém, com certeza
Outros preferem rezar
(V.V.)
AFORISMOS IMPLICANTES (uma pequena amostra da edição IV)
Por um triz é o estado de tudo.
Grandes violências têm fala leve e delicada.
Enterro triste é quando não há despedida.
Palavras e silêncios dizem mais do que almejamos.
A obra que cativa contém todas as risadas do mundo.
Até no caminho do meio, cuidado, teu rastro deixa cheiro.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Liberdades
Desconfio que tenho uma tendência (nada original) à adição.
Anos de vida nos trazem não só manias, mas também alguns hábitos bem selecionados.
Meu grande vício é a liberdade.
Dizem as más línguas que é por isso que não me caso.
Digo às más línguas que é por isso que não me faltam companheiros,
além das almejadas felicidades.
Liberdade (Fernando Pessoa)
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal,
Como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Ricardo Reis, in "Odes" :
Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.
Liberdade Condicional (Mário Quintana)
Poderás ir até a esquina
Comprar cigarros e voltar
Ou mudar-te para a China
– só não podes sair de onde tu estás.
Abel Silva, in "Só Uma Palavra me Devora"
A ALMA DA AVE É O OVO
A ARMA DA AVE É O VOO
Liberdade (Vera Versiani)
Cappuccino com tomate, linguiça e canela
Vatapá com chocolate, abacaxi e coentro
No auge da tempestade abro portas e janelas
Liberdade é o que carrego aqui dentro.
Pirâmide (Carlito Azevedo)
Quando
Retiraram o
último bloco de
pedra que a prendia
ao solo a pirâmide
flutuou
Todos os caminhos levam a uma só placa de
sinalização: "Mantenha distância". (V.V.)
Silêncio, todos estamos dormindo! (V.V.)
Aproveitem, pois amanhã não haverá espaço,
ar respirável ou justiça de qualquer espécie. (V.V.)
Coragem, o que quer que faça não pesará em
nada no correr da carruagem. (V.V.)
Confortem-se, os homens de hoje não estarão
mais aqui amanhã. (V.V.)
Ânimo, as crianças serão mais burras no futuro e
não saberão apontar os culpados. (V.V.)
Movam-se, qualquer gesto original será bem-vindo
no mar de mesmices generalizadas. (V.V.)
Melhor que pedir desculpas é não ter que fazê-lo.
Ninguém é perfeitamente idiota, a não ser que
exercite o sê-lo. (V.V.)
Anos de vida nos trazem não só manias, mas também alguns hábitos bem selecionados.
Meu grande vício é a liberdade.
Dizem as más línguas que é por isso que não me caso.
Digo às más línguas que é por isso que não me faltam companheiros,
além das almejadas felicidades.
Liberdade (Fernando Pessoa)
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal,
Como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Ricardo Reis, in "Odes" :
Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.
Liberdade Condicional (Mário Quintana)
Poderás ir até a esquina
Comprar cigarros e voltar
Ou mudar-te para a China
– só não podes sair de onde tu estás.
Abel Silva, in "Só Uma Palavra me Devora"
A ALMA DA AVE É O OVO
A ARMA DA AVE É O VOO
Liberdade (Vera Versiani)
Cappuccino com tomate, linguiça e canela
Vatapá com chocolate, abacaxi e coentro
No auge da tempestade abro portas e janelas
Liberdade é o que carrego aqui dentro.
Pirâmide (Carlito Azevedo)
Quando
Retiraram o
último bloco de
pedra que a prendia
ao solo a pirâmide
flutuou
Todos os caminhos levam a uma só placa de
sinalização: "Mantenha distância". (V.V.)
Silêncio, todos estamos dormindo! (V.V.)
Aproveitem, pois amanhã não haverá espaço,
ar respirável ou justiça de qualquer espécie. (V.V.)
Coragem, o que quer que faça não pesará em
nada no correr da carruagem. (V.V.)
Confortem-se, os homens de hoje não estarão
mais aqui amanhã. (V.V.)
Ânimo, as crianças serão mais burras no futuro e
não saberão apontar os culpados. (V.V.)
Movam-se, qualquer gesto original será bem-vindo
no mar de mesmices generalizadas. (V.V.)
Melhor que pedir desculpas é não ter que fazê-lo.
Ninguém é perfeitamente idiota, a não ser que
exercite o sê-lo. (V.V.)
quinta-feira, 31 de março de 2011
Máscaras
O Grupo cênico-musical Eco do Santa Marta, que dirijo há quase nove anos, utiliza máscaras em um de seus números no último espetáculo montado.
A máscara sugere busca de identidade, justamente pela ausência de identificação clara, óbvia, explícita, do eu que o utiliza, quando ocorre uma associação pactual imediata com o disfarce, com o recolhimento desse eu. Desta forma, sua utilização chama atenção para o "quem somos" e para o "a que viemos".
Máscaras sugerem mistério a nós espectadores, e até receio pelo que nos é desconhecido. São utilizadas tanto como adereços, como instrumentos capazes de mobilizar sentimentos e reações emotivas de todo tipo.
É tênue o limite entre o eu real, criador, e o eu criado, exposto. E a máscara explicita, valoriza isto, a criatura. A máscara é moldura.
É o símbolo maior das muitas "máscaras" que usamos no dia a dia para interagirmos uns com os outros e construirmos o sutil de nossas multifacetadas personalidades.
As máscaras têm origem religiosa. O homem, ao envergar uma delas, estaria manifestando o espírito da divindade que ela representasse.
É um objeto de destaque na cultura africana, como em outras culturas mundo afora.
No teatro grego e romano a máscara tem a função de estabelecer a identificação, a relação forte entre o personagem e o ator. Serve como reforço na assunção absoluta do papel que devemos representar.
Máscara é introversão, proteção, segurança, tanto quanto é procura, escape, ousadia, liberdade.
O que se procura esconder é o que se escancara. O que se escancara se transforma...
Waly Salomão, segundo Antonio Cícero, em Pan-cinema Permanente, referia-se ao grande teatro que é o mundo: "são máscaras sobre máscaras, não há um real último".
O fato é que usamos máscaras para mostrar a cara.
Usamos máscaras para nos expor.
.
Usamos máscaras para sermos o que somos.
A máscara sugere busca de identidade, justamente pela ausência de identificação clara, óbvia, explícita, do eu que o utiliza, quando ocorre uma associação pactual imediata com o disfarce, com o recolhimento desse eu. Desta forma, sua utilização chama atenção para o "quem somos" e para o "a que viemos".
Máscaras sugerem mistério a nós espectadores, e até receio pelo que nos é desconhecido. São utilizadas tanto como adereços, como instrumentos capazes de mobilizar sentimentos e reações emotivas de todo tipo.
É tênue o limite entre o eu real, criador, e o eu criado, exposto. E a máscara explicita, valoriza isto, a criatura. A máscara é moldura.
É o símbolo maior das muitas "máscaras" que usamos no dia a dia para interagirmos uns com os outros e construirmos o sutil de nossas multifacetadas personalidades.
As máscaras têm origem religiosa. O homem, ao envergar uma delas, estaria manifestando o espírito da divindade que ela representasse.
É um objeto de destaque na cultura africana, como em outras culturas mundo afora.
No teatro grego e romano a máscara tem a função de estabelecer a identificação, a relação forte entre o personagem e o ator. Serve como reforço na assunção absoluta do papel que devemos representar.
Máscara é introversão, proteção, segurança, tanto quanto é procura, escape, ousadia, liberdade.
O que se procura esconder é o que se escancara. O que se escancara se transforma...
Waly Salomão, segundo Antonio Cícero, em Pan-cinema Permanente, referia-se ao grande teatro que é o mundo: "são máscaras sobre máscaras, não há um real último".
O fato é que usamos máscaras para mostrar a cara.
Usamos máscaras para nos expor.
.
Usamos máscaras para sermos o que somos.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Há pessoas com total inaptidão para o amor ou para a felicidade.
Seria o mesmo que dizer: os tremendamente chatos existem!!
Não descarto a possibilidade de ser um deles, mas só trago o assunto à baila como pano de fundo para alguns dos recortes de hoje:
O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.
(José Luís Peixoto, em Uma Casa na Escuridão, ed. Record)
Tudo seduz. Mesmo o pequeno pássaro
nos atrai em meio à pura folhagem,
a flor, não tendo espaço, impõe-se para nós,
e que mais exige o vento? Só o deus,
qual uma coluna, deixa passar, distribuindo,
bem no alto, e sustentando, em ambas as partes,
a leve curvatura de sua impassibilidade.
(Rainer Maria Rilke; trad. Marco Lucchesi)
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
(Fernando Pessoa)
Grosso.
Estúpido.
Panaca.
Calhorda.
(Namorar engorda).
Crápula.
Tapado.
Bronco.
Demente.
(O amor é incompetente).
Asno.
Covarde.
Idiota.
Canalha.
(Eros sempre perde a batalha).
(Vera Versiani, em Nada Para Humanos, ed. Oficina Editores)
Não sofremos por não sermos amados.
Sofremos por acreditarmos que o somos.
(Roland Barthes)
Há algo curiosamente monótono na felicidade dos outros.
(Aldous Huxley)
As relações estão fadadas ao fracasso.
A alegria não quer saber de versões desalinhadas
de um mesmo traço.
(V.V.)
Sinto informá-lo: quando a felicidade bater à sua porta,
é quase certo que não será reconhecida!
(V.V.)
O melhor do amor é a ilusão do amor.
(V.V.)
Sou infeliz, Logo, existo!
(V.V)
Felicidade alheia causa inveja.
Infelicidade alheia traz consolo.
Matemos o próximo.
(V.V.)
Seria o mesmo que dizer: os tremendamente chatos existem!!
Não descarto a possibilidade de ser um deles, mas só trago o assunto à baila como pano de fundo para alguns dos recortes de hoje:
O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.
(José Luís Peixoto, em Uma Casa na Escuridão, ed. Record)
Tudo seduz. Mesmo o pequeno pássaro
nos atrai em meio à pura folhagem,
a flor, não tendo espaço, impõe-se para nós,
e que mais exige o vento? Só o deus,
qual uma coluna, deixa passar, distribuindo,
bem no alto, e sustentando, em ambas as partes,
a leve curvatura de sua impassibilidade.
(Rainer Maria Rilke; trad. Marco Lucchesi)
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
(Fernando Pessoa)
Grosso.
Estúpido.
Panaca.
Calhorda.
(Namorar engorda).
Crápula.
Tapado.
Bronco.
Demente.
(O amor é incompetente).
Asno.
Covarde.
Idiota.
Canalha.
(Eros sempre perde a batalha).
(Vera Versiani, em Nada Para Humanos, ed. Oficina Editores)
Não sofremos por não sermos amados.
Sofremos por acreditarmos que o somos.
(Roland Barthes)
Há algo curiosamente monótono na felicidade dos outros.
(Aldous Huxley)
As relações estão fadadas ao fracasso.
A alegria não quer saber de versões desalinhadas
de um mesmo traço.
(V.V.)
Sinto informá-lo: quando a felicidade bater à sua porta,
é quase certo que não será reconhecida!
(V.V.)
O melhor do amor é a ilusão do amor.
(V.V.)
Sou infeliz, Logo, existo!
(V.V)
Felicidade alheia causa inveja.
Infelicidade alheia traz consolo.
Matemos o próximo.
(V.V.)
sexta-feira, 4 de março de 2011
Waly Salomão I, II, III, IV e V
CARTA ABERTA A JOHN ASHBERY
A memória é uma ilha de edição – um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.
Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser
levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?
A vida não é uma tela e jamais adquire
o significado estrito
que se deseja imprimir nela.
Tampouco é uma estória em que cada minúcia
encerra uma moral.
Ela é recheada de locais de desova, presuntos,
liquidações, queima de arquivos,
divisões de capturas,
apagamentos de trechos, sumiços de originais,
grupos de extermínios e fotogramas estourados.
Que importa se as cinzas restam frias
ou se ainda ardem quentes
se não é selecionada urna alguma adequada,
seja grega seja bárbara,
para depositá-las?
Antes que o amanhã desabe aqui,
ainda hoje será esquecido o que traz
a marca d'água d'hoje.
Hienas aguardam na tocaia da moita enquanto
os cães de fila do tempo fazem um arquipélago
de fiapos do terno da memória.
Ilhotas. Imagens em farrapos dos dias findos.
Numerosas crateras ozoniais.
Os laços de família tornados lapsos.
Oco e cárie e cava e prótese,
assim o mundo vai parindo o defunto
de sua sinopse.
Sem nenhuma explosão final.
Nulla die sine linea. Nenhum dia sem um traço.
Um, sem nome e com vontade aguada,
ergue este lema como uma barragem
anti-entropia.
E os dias sucedem-se e é firmada a intenção
de transmudar todo veneno e ferrugem
em pedaço do paraíso. Ou vice-versa.
Ao prazer do bel-prazer,
como quem aperta um botão da mesa
de uma ilha de edição
e um deus irrompe afinal para resgatar o humano
fardo.
Corrigindo:
o humano fado.
UM LEGADO
DE WALLACE STEVENS
Assim como quem
– agnóstico, cético, sarcástico, incréu –
estende réstias de alho por toda a casa,
para afastar mau agouro.
Assim como quem plurifica
a ferocidade da mente,
zela pela aura, aurora de cada palavra,
com ritmo penetra, sexualiza a fala,
colore com finuras, matizes de papel de seda,
o balão do pensamento
tornando-o inda mais chiaroscuro, espermático;
e com cerol de vidro moído, cola de sapateiro,
afia, tempera o laço mágico
que rabeia a sorte, compele o futuro
e provê um canto, um giro diverso para cada ato.
Um retângulo de morro/
um recorte losango de céu azul-turquesa/
o teatro gestual-masturbatório das mãos/
linhas e linhas e linhas/
e o móbile rompe nuvens,
rasga novos desenhos sobre o mapa celeste.
Cumprir uma receita ancestral,
de prístina pureza:
encharcar ao longo do poema inteiro,
do começo até o fim,
metáforas, metáforas, metáforas.
Metáforas à mancheia:
uma arraia-miúda
intenta
ser deus entre deuses.
ANTI-VIAGEM
Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.
Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?
Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?
Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal de Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.
Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um parachoque.
Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.
Medito à beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:
EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.
RUA CARIOCA 1993
Estilo tísico (corte cronológico século 19)
de ser poeta.
Estilo tísico abre a boca e fala de rua
como se pavimentasse
com paralelepípedos
seu gabinete engasgado.
O que estilo tísico pensa ser rua:
rua não é nem rua foi.
Saudades do sapo ou do peixe-boi.
São imagens roubadas de poemas e poetas,
recortes, recopilações, reprises,
amostras grátis,
coágulos sem sangue,
próteses da fantasmagórica Rua do Sabão.
Sem a vitalidade amarelo-estridente
de um cravo de defunto.
TAL
QUAL
PAUL
VALÉRY
dorenavant, doravante,
(somente em algum caso específico
com calculado efeito retroativo)
cada poema
...onde tudo é equilíbrio
e cálculo
como na música de Stravinsky.
Valéry não é arremedo de escudo
para o acuado remoedor do ar de medo:
um poema deve ser uma festa do intelecto.
E poemas e festas e intelectos implicam riscos.
Cuidado para não escrever:
ali, onde tudo não é senão ordem e beleza,
luxo, calma e volúpia.
Mas nada de emenda
pois este paraíso-artefato
só se atinge de fato no poema.
Por que proibi-lo de ser o delírio das sensações?
Por que propor, ó fedelho, um cinto de castidade
e uma presilha para uma donzela-musa
deflorada e redeflorada cuja virgindade
só se recompõe por gosto de ser
deflorada e redeflorada mais?
Às vezes, ela clama para ser estrupada
mas não por você que fede a cueiros.
Sei, com os antigos e alguns vivos,
que a fobia castra os ritmos
e as formas da coragem.
Sá de Miranda, Camões, Cesário,
João Cabral, Augusto, Ashbery:
a resolução de ser poeta
sem precisar o peito
estufar
de vãvaronice.
E, no mais,
POESIA É O AXIAL.
A memória é uma ilha de edição – um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.
Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser
levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?
A vida não é uma tela e jamais adquire
o significado estrito
que se deseja imprimir nela.
Tampouco é uma estória em que cada minúcia
encerra uma moral.
Ela é recheada de locais de desova, presuntos,
liquidações, queima de arquivos,
divisões de capturas,
apagamentos de trechos, sumiços de originais,
grupos de extermínios e fotogramas estourados.
Que importa se as cinzas restam frias
ou se ainda ardem quentes
se não é selecionada urna alguma adequada,
seja grega seja bárbara,
para depositá-las?
Antes que o amanhã desabe aqui,
ainda hoje será esquecido o que traz
a marca d'água d'hoje.
Hienas aguardam na tocaia da moita enquanto
os cães de fila do tempo fazem um arquipélago
de fiapos do terno da memória.
Ilhotas. Imagens em farrapos dos dias findos.
Numerosas crateras ozoniais.
Os laços de família tornados lapsos.
Oco e cárie e cava e prótese,
assim o mundo vai parindo o defunto
de sua sinopse.
Sem nenhuma explosão final.
Nulla die sine linea. Nenhum dia sem um traço.
Um, sem nome e com vontade aguada,
ergue este lema como uma barragem
anti-entropia.
E os dias sucedem-se e é firmada a intenção
de transmudar todo veneno e ferrugem
em pedaço do paraíso. Ou vice-versa.
Ao prazer do bel-prazer,
como quem aperta um botão da mesa
de uma ilha de edição
e um deus irrompe afinal para resgatar o humano
fardo.
Corrigindo:
o humano fado.
UM LEGADO
DE WALLACE STEVENS
Assim como quem
– agnóstico, cético, sarcástico, incréu –
estende réstias de alho por toda a casa,
para afastar mau agouro.
Assim como quem plurifica
a ferocidade da mente,
zela pela aura, aurora de cada palavra,
com ritmo penetra, sexualiza a fala,
colore com finuras, matizes de papel de seda,
o balão do pensamento
tornando-o inda mais chiaroscuro, espermático;
e com cerol de vidro moído, cola de sapateiro,
afia, tempera o laço mágico
que rabeia a sorte, compele o futuro
e provê um canto, um giro diverso para cada ato.
Um retângulo de morro/
um recorte losango de céu azul-turquesa/
o teatro gestual-masturbatório das mãos/
linhas e linhas e linhas/
e o móbile rompe nuvens,
rasga novos desenhos sobre o mapa celeste.
Cumprir uma receita ancestral,
de prístina pureza:
encharcar ao longo do poema inteiro,
do começo até o fim,
metáforas, metáforas, metáforas.
Metáforas à mancheia:
uma arraia-miúda
intenta
ser deus entre deuses.
ANTI-VIAGEM
Toda viagem é inútil,
medito à beira do poço vedado.
Para que abandonar seu albergue,
largar sua carapaça de cágado
e ser impelido corredeira rio abaixo?
Para que essa suspensão do leito
da vida corriqueira, se logo depois
o balão desinfla velozmente e tudo
soa ainda pior que antes pois entra
agora em comparação e desdoiro?
Nenhum habeas corpus
é reconhecido no Tribunal de Júri do Cosmos.
O ir e vir livremente
não consta de nenhum Bill of Rights cósmico.
Ao contrário, a espada de Dâmocles
para sempre paira sobre a esfera do mapa-múndi.
O Atlas é um compasso de ferro
demarcando longitudes e latitudes.
Quem viaja arrisca
uma taxa elevada de lassitudes.
meu aconchego é o perto,
o conhecido e reconhecido,
o que é despido de espanto
pois está sempre em minha volta,
o que prescinde de consulta
ao arquivo cartográfico.
O familiar é uma camada viscosa,
protetiva e morna
que envolve minha vida
como um parachoque.
Nunca mais praias nem ilhas inacessíveis,
não me atraem mais
os jardins dos bancos de corais.
Medito à beira da cacimba estanque
logo eu que me supunha amante
ardoroso e fiel
do distante
e cria no provérbio de Blake que diz:
EXPECT POISON FROM THE STANDING WATER.
RUA CARIOCA 1993
Estilo tísico (corte cronológico século 19)
de ser poeta.
Estilo tísico abre a boca e fala de rua
como se pavimentasse
com paralelepípedos
seu gabinete engasgado.
O que estilo tísico pensa ser rua:
rua não é nem rua foi.
Saudades do sapo ou do peixe-boi.
São imagens roubadas de poemas e poetas,
recortes, recopilações, reprises,
amostras grátis,
coágulos sem sangue,
próteses da fantasmagórica Rua do Sabão.
Sem a vitalidade amarelo-estridente
de um cravo de defunto.
TAL
QUAL
PAUL
VALÉRY
dorenavant, doravante,
(somente em algum caso específico
com calculado efeito retroativo)
cada poema
...onde tudo é equilíbrio
e cálculo
como na música de Stravinsky.
Valéry não é arremedo de escudo
para o acuado remoedor do ar de medo:
um poema deve ser uma festa do intelecto.
E poemas e festas e intelectos implicam riscos.
Cuidado para não escrever:
ali, onde tudo não é senão ordem e beleza,
luxo, calma e volúpia.
Mas nada de emenda
pois este paraíso-artefato
só se atinge de fato no poema.
Por que proibi-lo de ser o delírio das sensações?
Por que propor, ó fedelho, um cinto de castidade
e uma presilha para uma donzela-musa
deflorada e redeflorada cuja virgindade
só se recompõe por gosto de ser
deflorada e redeflorada mais?
Às vezes, ela clama para ser estrupada
mas não por você que fede a cueiros.
Sei, com os antigos e alguns vivos,
que a fobia castra os ritmos
e as formas da coragem.
Sá de Miranda, Camões, Cesário,
João Cabral, Augusto, Ashbery:
a resolução de ser poeta
sem precisar o peito
estufar
de vãvaronice.
E, no mais,
POESIA É O AXIAL.
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